Gorda e Sapatão

lesbianidade, sexualidade, feminismo, bodypositve

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by Sonne-Hernandez
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Onde estão as preta e sapatão?

Queridas pretas lésbicas,

Por onde vocês andam? Parece que desde que assumi minha identidade preta&lésbica, vocês sumiram. Eu não entendi isso… Me assumo, reivindico e vocês desaparecem? Como assim? Me sinto abandonada. Sem acalento, sem afago. Porque isso agora?

Por onde vocês andam, pretas? Não as vejo nas ruas, nas lojas, nos cinemas… Muito menos nas escolas, nas universidades, nas empresas de comunicação social. Não… acho que já teve uma vez  que as vi… Foi de uma forma muito ruim, zombeteira com a gente. Era retratado um estereotipo bem pesado, sabe? Carregado de duplos sentidos misóginos e racistas, lesbofóbico por regra… Eu não aguentei nos ver diante daquela telinha. Do mais, pra falar a verdade, não lembro se cheguei a ve-las em algum filme na tela grande. Não…. pode ser que eu lembre e faça um update neste post, mas por enquanto não lembro.

Pretas de Safo, por onde vocês andam? No trabalho eu não encontro com vocês, aqui vocês não existem. No metrô, eu encontro bastante até, é verdade… Nos identificamos por olhares certeiros mas logo um vagão passa e eu nunca mais as vejo. O que é isso? Não gosto assim… Onde eu as encontroOnde é o pico de vocês?

Quero conhece-las. Quero conversar, almoçar e beber com vocês, sempre que pudermos. Mas eu já procurei e não obtive resultados.
Eu sei que vocês existem, resistem e persistem, mas… Onde?!  É muito pungente a necessidade de estar entre vocês, queridas pretas. Pois só assim vou me sentir parte daquele grupo ao qual eu realmente pertenço sem nenhuma pressão exercendo sobre mim. Eu pertenço a este grupo social pois me identifico e reivindico este espaço para promoção de uma emancipação negralésbica! Entendem?

É mágico o encontro daquelas que por muito tempo estiveram separadas… E eu não quero me manter longe.

Será que eu é que frequento espaços errados? Espaço “de branco”?  Algumas minas não-negras não entendem essa minha inquietude de encontra-las… Pra elas, é “tudo sapatão mesmo, não faz diferença”. Mas FAZ SIM!
Faz diferença estar rodeada de pretas e lésbicas, que compartilham comigo, o racismo e a lesbofobia. Faz diferença sim! A forma como as pessoas olham para um grupo de sapas brancas na rua, é diferente do olhar que disparam contra um grupo de sapas pretas na rua.

Não amiga branca, não é segregar. Tão pouco é isola-las de meu convívio ou promover esse tipo de coisa. Essa minha vontade é motivada pelos anos de exclusão existencial ao qual eu estive afundada, obrigatoriamente. E agora, que consegui me livrar de muitas coisas, nada mais justo que queira conviver com aquelas que detém especificidades em comuns comigo. Não acha?

Vou continuar deixando registros de que prezo muito pela união preta&sapatão nos espaços públicos. Vou continuar gritando pra todo mundo ouvir (e ler) que estar cercada por amigas pretas e lésbicas FAZ SIM TODA DIFERENÇA na vida de uma… preta&lésbica!
Pra quem nunca teve um referencial de mulher preta e lésbica pra se identificar e não sentir-se avulsa no mundo, clamar por vocês faz todo o sentido na minha vida.

 

 

 

Women with Colourful Rug,1920 by Max Pechstein

Women with Colourful Rug,1920 by Max Pechstein

Preciso confessar que esse texto estava nos rascunhos há uns 4 meses já. Eu escrevi num dia em que me sentia triste e muito sozinha. Lembro que chorei e parei na metade da escrita. Me achei muito ridícula por escrever isso… Achei que a culpa era minha por não ser “tão legal assim” e, consequentemente, esse era o real motivo pelo qual eu não tinha amigas preta&sapatão. Eu que não era boa o suficiente para conquista-las…
Desse tempo pra cá, eu percebi que havia caido em mais uma armadilha mesquinha do patriarcado&CIA, que me fez impedir de escrever para as minhas semelhantes.

A dificuldade em encontra-las é porque há toda uma trama perversa que permeia nossas vidas que não nos permitem exibir quem somos. O racismo faz com que nossa identidade preta seja massacrada e, exalta-la aos quatro cantos é digno de vergonha. “Vai ter orgulho de ser preta, menina??? Isso é coisa ruim!” disse uma pessoa que eu prefiro guardar o nome.
E como se não bastasse, nos identificar enquanto lésbicas ou bissexuais, também não é um mar de rosas porque vem estilhaços pontíagudos de preconceito por todos os lados: desde à família até às amizades. No trabalho: Shiiiiiw! Você tem que pagar de heterossexual, fingir que sente atranção pelos caras… Pra se manter no emprego. São poucos os lugares que não te quebram por causa da sua orientação sexual, sabiam? Pois é.  Sair às ruas em plena segurança de nossa negritude e lesbiandade é um furo na barreira racista-patriarcal. E nós conseguimos!
A medida que sabemos da existência uma da outra, acabamos por gerar um efeito benéfico que vai atingir várias minas… Essa é a tal da visibilidade que eu busco. Bom, pelo menos uma boa parte dela.

Maria Rita, Nênis, Luana, Mara, Regiane, Dani, Paloma, Katiara,Drica, Fernanda… Foram algumas das preta&sapatão que eu tive a oportunidade de conhecer, trocar ideia, militar junto, beber e dar risada…. Mas se eu for analisar, elas são minorias. No entanto, as prezo como se fosse minha jóia mais preciosa e rica: o que de fato é.

 

Zanele Muholi: Between Friends, 2010. Photo by: Zanele Muholi. Courtesy of Michael Stevenson Gallery.

Zanele Muholi: Between Friends, 2010. Photo by: Zanele Muholi. Courtesy of Michael Stevenson Gallery.

 

 

EU ESTOU AQUI!
preta&sapatão,
sou mais uma
dando a cara
à tapa.
Se você aí, que é preta e lésbica, e me leu agora: manda um oi! Me diz sobre a sua existência.

Um beijo!

Picasso
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Das motivações pra série “Compartilhando empoderamento”

Ao longo desses meses, eu publiquei relatos que vieram de diversas mulheres, através de email. A maioria desses relatos sempre tinham pontos em comum que se encontrava em algum parágrafo (ou muitas vezes, em todos!). Foram publicados exatos 21 textos, do dia 04/02/2014 até o dia o dia 07/04/2014. Alguns desses textos tinham identificação, outros não.

Eu não consegui responder nenhum email. Cada vez que eu os lia até o fim, meu corpo e minha mente mergulhavam num mar de dor e comoção. Ler todos os textos não foi uma tarefa fácil. Em alguns deles eu só consegui ler até a metade, daí parava. Começava de novo, num outro dia. Era de engasgar, perder o ar, comprimir o estômago… contorcer a face e deixar a lágrima escorrer.

Eu não pensei que leria tantos fatos marcantes, e principalmente, não pensei que essa seria a tarefa mais díficil enquanto mantenedora deste blog. Foi realmente muito difícil. Saber que, se para mim já estava doendo só de ler aquilo, imaginei o quão dolorido deve ter sido passar por toda uma vida de sofrimentos, violências, negação,  disturbios alimentares, privações.

A ideia de pedir para que outras minas me mandassem email contando sobre si mesmas, não foi algo estrategicamente pensando, elaborado. Foi como uma necessidade, que você só reage diante dela. Eu queria saber o que vocês haviam passado. Eu queria saber com quantas de vocês a minha história se parecia. Eu queria saber como vocês resistiram e insistiram. Algumas de vocês me contaram e eu sou imensamente grata por isso. Embora eu não tenha respondido nenhum email, deixo aqui registrado minha imensa admiração por cada uma. Por mais que algumas de vocês ainda não estejam plenamente satisfeitas com suas ações em relação ao próprio corpo ou em relação à família&amigos, peço que a desistência não seja uma opção. Mas eu as admiro pela capacidade de juntar letras e contar suas histórias pra alguém. E ainda mais: Permitir publicar!

Antes de começar o blog, bem antes… Eu nunca tinha tido coragem de contar qualquer coisa sobre mim para pessoas desconhecidas. Na internet, eu sempre ficava no superficial quando abria um blog novo, nada de me mostrar completamente. E vocês fizeram algo muito importante e de real grandeza. Expuseram suas vidas, suas dificuldades; as violências sofridas, os traumas. Expuseram suas fraquezas e vulnerabilidades.
Eu queria muito ter lido esse tipo de coisa há uns bons 6 anos atrás, viu… Me ajudaria muito saber que outras meninas passavam por coisas bastantes semelhantes que eu. Me ajudaria a traçar estratégias de sobrevivência com  maiores chances de dar certo. Com mais força nas minhas ações. Com mais esperanças.

Então, saibam que vocês são absurdamente incríveis e guerreiras por esse ato, além de se manterem firme na luta contra o ódio ao próprio corpo.

Deixo registrado também, meu pedido de desculpas pela demora de um texto para o outro. Quando chegaram mais de 5 textos em 1 dia, eu pensei que conseguiria publica-los diariamente. Pensei que conseguiria fazer isso e seria ótimo. Mas não deu. Muitas coisas aconteceram, a falta de energia me pegou várias vezes, o cansaço foi meu inimigo direto. Mas eu consegui finalizar. Publiquei tudo e me sinto bem agora.

- Das imagens que foram usadas aqui

Quem me acompanha desde o blogger, sabe que eu prezo muito o conteúdo visual dos meus posts. Nenhum texto meu foi publicado sem uma foto se quer. Nenhum. Sempre fiz questão de ilustrar o texto com alguma foto que representasse a contra-hegemônia midiática, que produz corpos irreais e os vendem para lucrar em cima da nossa baixa auto-estima. Acima de tudo, eu sempre fiz questão de trazer aqui, imagens que se tornavam um soco na boca do estômago do opressor no quesito “beleza”.  E não. Eu não fiz esse blog pra ser mais um espaço perpetuador de opressões. Eu fiz esse blog pra destoar de todos os outros que existem por aí. Criei esse espaço pra ser acolhedor e uma ferramenta de empoderamento, de alguma forma.
Por isso eu sou tão chata e tão exigente ao escolher uma imagem ilustrativa do texto.  Sabe, é preciso ter tato… É preciso avaliar várias nuances que SEMPRE passam despercebidas. É preciso se atentar para a existência de mulheres diversas e que, estas, nunca são se quer notadas para título de realçar a beleza. É preciso, acima de tudo, reconhecer que somos uma categoria social diversa e plural, temos nossas especifidades e estas devem ser levadas em consideração o tempo todo! Mas a realidade que eu faço aqui, não é igual a que existe para a massa…
Mulheres diversas estão fora de cogitação nas capas de revistas, nos comerciais de tv, nos manequins. Somos excluídas porque tivemos a audácia de…. Sermos mulheres! Ora! E mulheres insubmissas! Mulheres com projetos políticos extremamente avançados para o que esperam de uma ‘mulher’. Mulheres que rejeitam aquilo que está posto nesta sociedade draconiana. Mulheres que existem parem além de qualquer consideração padronizada do que é uma mulher bela.
Por essas e outras que eu acabo demorando umas 4 horas procurando uma imagem. Pois é! Eu demoro tudo isso mesmo. Fuço tumblr, Pinterest, Deviant Art e os escambal!

Toda imagem que eu publico é uma sentenção de que eu tomei uma posição política. Toda imagem que eu publico tem um motivo, tem um porquê. Eu não faço parte daqueles que se dizem “imparciais”. Eu escolhi um lado para lutar e me orgulho muito de não ser imparcial.

É muito difícil encontrar imagens que saiam do padrão “branca-magra-europeia-cabeloslisos”. Sério gente, é bem difícil! E aí, quando eu encontro imagens de mulheres gordas, das duas uma: Ou estão em poses eróticas servindo de objeto sexual aos homens, ou têm as genitais sempre destacadas. Eu não sei definir em um termo qual é o meu “gosto” por imagens, mas eu sei que dessas aí eu não gosto. Ao longo dos posts eu fui optando por procurar ilustrações e pinturas à óleo, especificamente. Achei várias, não que tenha sido fácil, mas achei. O interessante dessas duas áreas, a ilusração e a pintura, é que elas te permitem adentrar com um olhar diferente para o que está exposto. Causa uma sensação diferente do que uma fotografia com uma modelo. Não sei explicar direito meu sentimento em relação à essas duas categorias artisticias, mas eu gosto muito.

Poucas foram as imagens que atingiram meu nível de exigência e satisfação na busca. Cheguei a pensar em escrever um manifesto para as artistas retratarem em suas obras corpos diversos porque tava foda! Mas aí nem escrevi pois achei muito abusado da minha parte querer falar o que uma artista precisa fazer, néan… Mas enfim.
Eu friso tanto essa questão da imagem porque eu sei que ela é absolutamente importante! Não dá pra dizer que “tanto faz”.  Faz diferença sim! É extremamente diferente você se deparar diariamente com imagem de mulheres diversas do se deparar com imagens de um único padrão de beleza. É extremamente diferente você publicar fotos que são o oposto do que prega uma sociedade racista. Isso causa um impacto.
A gente se reconhece na outra. Causa uma sensação de pertencimento existencial. É olhar aquela capa de revista e achar linda aquela mulher preta e gorda, de black bem grande sem nenhuma padronização amarrando o corpo dela.

A imagem causa um grande impacto nas nossas vidas. Nós, mulheres diversas, que nunca nos enxergamos em nada. E esse impacto pode ser benéfico, entusiasmador e empoderador. Isto é, se as mídias se dispuséssem a tomar essa frente… Mas sabemos que não, porque por trás dela, todo alicerce foi fortificado pelo poder do opressor dominando uma minoria de direitos.

Relaciono abaixo os posts e as imagens usadas com sua devida autoria -embora alguns tenham aparecido sem a autoria.

 #1 Compartilhado Por Franciele Siqueira:    http://gordaesapatao.com.br/1-compartilhado/

encontrado nos tumblr da vida

encontrado nos tumblr da vida

 2# compartilhado por “A” - http://gordaesapatao.com.br/2-compartilhado/

By Wim Visscher watercolor Afm. 50 x 40 cm  www.wimvisscher.nl

By Wim Visscher watercolor Afm. 50 x 40 cm www.wimvisscher.nl

#3 Compartilhado por Marina http://gordaesapatao.com.br/3-compartilhado/

encontrado nos tumblr da vida

By “R.D.”  – encontrado nos tumblr da vida

4# Compartilhado por Ketlyn – http://gordaesapatao.com.br/4-compartilhado/

by Eric Penington, Christine Pregnant (encontrado no Pinterest)

by Eric Penington, Christine Pregnant (encontrado no Pinterest)

#5 Compartilhado por Laís Otero – http://gordaesapatao.com.br/5-compartilhado/

The Adipositivity Project  - adipositivity.com

The Adipositivity Project – adipositivity.com

 

#6 compartilhado por Luísa Mansan http://gordaesapatao.com.br/6-compartilhado/

achado nos tumblr da vida - e sem autoria

achado nos tumblr da vida – e sem autoria legível

#7 compartilhado por Bruna Barlach-  http://gordaesapatao.com.br/280/

achado nos tumblr da vida. PS: Quem souber a autoria, pfvr, me conta! Essa foi uma das imagens mais bonitas que achei.

achado nos tumblr da vida. PS: Quem souber a autoria, pfvr, me conta! Essa foi uma das imagens mais bonitas que achei.

#8 compartilhado por Nathalie Inês – http://gordaesapatao.com.br/8-compartilhado/

achado nos tumblr da vida tbm

achado nos tumblr da vida tbm

 

#9 compartilhado por Luiza – http://gordaesapatao.com.br/293/

by Lucien Freud

by Lucien Freud

#10 compartilhado por Cláudia Naomi Abe – http://gordaesapatao.com.br/10-compartilhado/

Susan De Waardt-ruiter, on Pinterest

Susan De Waardt-ruiter, on Pinterest

#11 compartilhado por Luiza C. -  http://gordaesapatao.com.br/11-compartilhado/

DarlingRomeo

by Darling Romeo

#12 compartilhado por Luiza Ribeiro – http://gordaesapatao.com.br/12-compartilhado/

 

Belly Flop by Natalie Weinberg

Belly Flop
by Natalie Weinberg

 

#13 compartilhado por Maria – http://gordaesapatao.com.br/13-compartilhado/

Figure 6 by *M0AI on deviantart.com

Figure 6 by *M0AI on deviantart.com

#14 compartilhado por Amanda Tintori -http://gordaesapatao.com.br/14-compartilhado/

Hermann Mejía - by http://hermannmejia.blogspot.com.br

Hermann Mejía – by http://hermannmejia.blogspot.com.br

#15 compartilhado por M.L – http://gordaesapatao.com.br/15-compartilhado/

encontrado nos tumblr da vida

www.arkadyroytman.com / nudeoftheday.blogspot.com

#16 compartilhado por J.F.C – http://gordaesapatao.com.br/16-compartilhado-2/

Cara Thayer and Louie Van Patten - “Confrontational Paintings of Intimacy”

Cara Thayer and Louie Van Patten – “Confrontational Paintings of Intimacy”

#17 compartilhado por Francine Derschner http://gordaesapatao.com.br/20-compartilhado/

by Catherine Ducreux

by Catherine Ducreux

#18 compartilhado por anônima – http://gordaesapatao.com.br/18-compartilhado-2/

by Ethel Ashton - Alice Neel

by Ethel Ashton – Alice Neel

#19 compartilhado por C.P – http://gordaesapatao.com.br/19-compartilhado/

© Maxim Vakhovskiy

by © Maxim Vakhovskiy

#20 compartilhado por anônima – http://gordaesapatao.com.br/20-compartilhado-2/

Brooding Woman by Paul Gauguin

Brooding Woman by Paul Gauguin

#21 compartilhado por anônima – http://gordaesapatao.com.br/21-compartilhado/

by Ada Breedveld

by Ada Breedveld

Todos esses textos são registros são imperecíveis. São parágrafos e mais parágrafos recheados de tudo aquilo que o patriarcado&CIA vem incutindo nas nossas vidas. São relatos de sobrevivência que, infelizmente, não são únicos ou casos isolados.
Percebam que a maioria dos textos traz à tona o papel da família como ferramenta opressiva, sustentada na ideia e ação patriarcal que embasa nossa sociedade. A família, essa instituição dita indissolúvel, tem uma carga muito forte nesses relatos.
A escola e faculdade também não passam despercebidos, uma vez que é através delas que a nossa socialização se torna tortuosa quando nos deparamos com um mar de gente entupida de opressões e, bastando um click no gatilho, é disparado tudo de ruim contra aquelas que “fogem” à regra.

Fica aqui, então, devidamente registrado histórias de vidas reais, de meninas reais, de mulheres reais que, não obstante, ainda são vítimas de toda misogina e machismo. São vítimas que contaram suas histórias para ninguém esquecer ou achar que, só porque votamos ou entramos para a faculdade, é que está tudo resolvido.

Por essas e outras, me mantenho aqui. Me deixo à disposição para servir de ferramente contra a mídia machista, transfobica, corporativista que domina os meios de comunicação.
Esse é um pequeno espaço sim, mas creio eu ser um dos únicos que se dispõem a respeitar as mulheres, todas elas!

Me sinto feliz de finalizar esse post com um muito obrigada!

Agradeço a cada uma que reservou um pouquinho de seu tempo para escrever e me enviar.
Agradeço também à cada pessoa desconhecida que passa por aqui e leva alguma coisa de bom para si e para quem está ao seu redor.

Da gorda e sapatão,
Jéssica Ipólito

by Ada Breedveld
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#21 compartilhado

“(…)Existem dias que fico feliz, que me sinto a pessoa mais linda do mundo e não faço nada além de sorrir. Mas existem dias, como hoje e a maior parte dos outros, que tudo o que eu consigo fazer é deitar na cama e me odiar(…)

Anônima

Atualmente tenho 20 anos, 1,70 e cerca de 65kg. Não parece muito, né? Mas são esses “kg” que conseguiram tornar minha vida um verdadeiro inferno.Tudo começou quando eu tinha cerca de 14~15 anos, devia ter apenas uns cm a menos e pesava cerca de 45 kg. Ao meu ver tudo aquilo estava ótimo, realmente não tinha do que reclamar do meu corpo, até que… até que minha casa começou a se tornar o último lugar onde me sentia bem. Meus pais, meus próprios pais simplesmente começaram, sem mais nem menos, a apontar o dedo para mim e dizer “gorda”, “como você consegue comer tanto?”, “vai virar uma bola assim”, “come menos”. Essas palavras, vindas deles, conseguiam me machucar mais que qualquer ou soco ou tapa. No começo achei que fosse algo temporário, mas não. Isso nunca parou. Desde aquela época foram inúmeras as vezes que joguei a comida fora, fiquei dias comendo o aproximado a um prato de comida por uma semana ou mais. Com os anos as coisas só pioravam, eram sempre as mesmas palavras ou piores. Não, eu não conseguia lidar com isso. Eu tentava ignorar, tentava olhar para mim e dizer que era apenas uma brincadeira, mas não era. No fim do dia tudo o que conseguia fazer era deitar e chorar até pegar no sono. Com os anos eu peguei nojo do meu corpo, parei de usar praticamente todas as roupas que gostava por mostrarem a minha “gordura”. Eu parei de me amar, parei de sair, parei de me sentir bem, parei de dizer que estava feliz e passei a viver me escondendo do mundo e a achar que todas as pessoas que olhavam para mim na rua estavam rindo internamente. Passei a odiar comprar roupas por um simples motivo: ter que experimentar. Ver algo que eu amei, mas que não vai servir, e então, olhar para o meu corpo com uma roupa que não passou das coxas. Já perdi a conta de quantas vezes precisei comprar algo e no cheguei em casa comecei a chorar. Eu não consigo me amar, não consigo me sentir por mais de 5 minutos.

Eu tentei pedir ajuda, dizer que estava mal. Eu tentei, do fundo do coração, eu tentei. Só que essa ajuda nunca veio. Não sei se um dia ela virá.

Existem dias que fico feliz, que me sinto a pessoa mais linda do mundo e não faço nada além de sorrir. Mas existem dias, como hoje e a maior parte dos outros, que tudo o que eu consigo fazer é deitar na cama e me odiar, chorar e perguntar se algum dia vou me amar, mas me amar de verdade. Se algum dia conseguirei olhar pro meu corpo e sorrir, mas sorrir com toda a sinceridade possível.

A você que teve essa ideia maravilhosa: Obrigada, de todo o coração, muito obrigada. Dizer isso aqui e saber que alguém vai ler e entender o que eu digo sem me apontar um dedo e jugar cada palavra, bem, isso limpou a minha alma.

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