Uma guinada à direita também se expressa no feminismo

Uma guinada à direita também se expressa no feminismo


Publicado na minha página pessoal do facebook dia 8 de Outubro de 2016.


 

Cada vez mais tenho confirmado o fato de que essa guinada à direita neoliberal, fundamentalista e conservadora e consequentemente fascista, chegou à algumas feministas envoltas no manto do Feminismo Radical que me parecem desconhecer suas raízes, e tem alterado nocivamente a inicial proposta política que feministas como Shulamith Firestone propuseram no início dos anos 60. Agora, no final do primeiro semestre de Gênero e Diversidade, pude me deparar com o pensamento crítico do feminismo radical e como este foi se desenvolvendo ao longo do tempo e quais são suas premissas. Numa anotação da aula, destaquei:

“Radical: não por seu radicalismo político mas por sua intransigência quanto à não aceitação das próprias diferenças sexuais biologicamente definidas; pela crítica contundente à sociedade industrial burocrata e militarista onde se exclui grupos sociais principalmente as mulheres”.

Estudando o pensamento de Shulamith Firestone (1970) e Kate Millet (1969) , é possível compreender que o ‘radical’ delas não é isso que vem ganhando força atualmente (dentro de grupos de facebook e até o que se formam para além deles), tomando contornos violentos e sobretudo, extremamente excludentes. A se saber, Firestone, discorria que a opressão das mulheres decorria da experiência da maternidade e propunha então -dentre tantos pensamentos&ações- uma comunidade revolucionária (e utópica, com contradições também) que minimizaria o exclusivo cuidado das crianças somente pelas mulheres; o controle das novas tecnologias de reprodução como necessária fonte de independência dos homens para reprodução (a maternidade é uma escolha); também discorria acerca da sexualidade das crianças, o adultocentrismo e outros pontos que merecem ser conhecidos mas que não tenho como coloca-los todos aqui.

Em Kate Millet é possível verificar como ela adiciona análises psicológicas e sociais à análise econômica que faziam na época, algo extremamente potente porque retoma o pensamento de Simone de Beauvoir vinte anos depois do livro “O Segundo Sexo”, que justamente endossa que a biologia NÃO é nosso destino e que somos socialmente construídas para sermos mulheres, a tal da socialização que tanto se espalha por aí sem nenhum argumento aprofundado: o sexo biológico é uma categoria sociocultural de caráter político e o patriarcado estabelece sua superioridade através de complexas relações de poder numa supremacia “oculta” enquanto corpo mas óbvio na capilaridade em todas as instituições (Estado, Família, Igreja, Escola…).

Millet e Firestone foram as responsáveis por denunciar o apagamento das mulheres na história “tradicional” ao mesmo tempo que impulsionaram a produção teórica política e literária de mulheres; vão romper com o silêncio e estabelecer que “O pessoal é político” (e vocês já ouviram isso antes!), pra que o espaço privado seja também questionado e mudado porque ali também está manifestada as opressões contra mulheres e não somente no campo público e econômico; vão teorizar sobre os programas políticos e revolucionários marxistas. Enfim… vão desencadear processos que damos continuidade até hoje sem nem saber (combate à violência doméstica é exemplo do pessoal é político, “Meu corpo minhas regras”).

Contudo, toda vida, entretanto, esse post é pra mostrar um pouco do pensamento político dessas duas expoentes do feminismo radical no sentido de questionar de onde começaram e para onde estamos caminhado… Com essa chuva de transfobias e exclusão propagadas por mulheres agarradas à essa corrente teórica feminista que tem feito dela nada radical, mas sim, retrocedido todo estudo dessas teóricas, quando bradam à volta ao útero, dizendo que mulheres são só aquelas que tem útero, trompas, ovários, vagina.

O feminismo radical ofereceu questionamentos e aprimoramentos de conceitos, adição de questões e desdobramentos infindáveis, protagonizados por Teresa de Lauretis, Fox Keller, Gayatri Spivake outras assim sucessivamente. Mas fico pensando em quais desdobramentos atuais o feminismo radical vem ganhado exatamente. E é preciso um olhar para ESTA rede social, que muita gente da acadêmia e militância não dá moral mas que é daqui mesmo, do espaço virtual, que discursos conservadores e violentos ganham força a cada dia. É preciso reconhecer o que acontece por aqui e estudar esse fenômeno pois estamos frente à uma geração de feministas que não sabe de onde o feminismo surgiu, em que contexto histórico e condições ele aparece, nem quais suas pensadoras (e tardiamente saberá sobre o pensamento de feministas negras em oposição construtiva à feministas brancas de cada época) existem e o que elas falam… E o perigo é esse “de tudo um pouco” que no final só serve pra uma tendência individualista da perspectiva, porque se não se sabe de onde veio, se não se tem as utopias necessárias para continuar buscando alcançar, pelo que se luta exatamente? Se as construções feministas se auto-alimentaram tanto e desencadearam processos riquíssimos do saber, cada qual com sua limitação e crítica, porque atualmente estamos diante de discursos tão deslocados do que foram propostos inicialmente e porque se tornam cada vez mais violentos? Porque é desconsiderado o ambiente virtual como parte dos mesmos processos teóricos dos feminismos, e porque não é dada importância alguma para a disputa discursiva que está posta?

Eu deixo aqui o texto (traduzido) referência que foi estudado na aula de Introdução aos Estudos de Gênero ministrada pela professora doutorada Marcia Macedo:

https://drive.google.com/file/d/0B3ktrews-mN7eWNRU3hnUFhXTTZDSm5lbnUwaFNOLTZPUFBN/view?usp=sharing

“Genealogías feministas. Contribuciones de la perspectiva radical a los estudios de las mujeres” por Fefa Vila.
http://revistas.ucm.es/…/art…/viewFile/POSO9999330043A/24664

 


*Imagem destacada original: “In her series entitled “I Promise I Will Not Forget You,” trans artist Catherine Graffam depicts young Houston couple Crystal Jackson and Britney Cosby, who were tragically murdered in March 2014 allegedly by Cosby’s father because they were gay. “

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