Que a interseccionalidade tome todas as frentes políticas  – reflexões de insônia

Que a interseccionalidade tome todas as frentes políticas – reflexões de insônia


Nesse mês é celebrado o dia 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher negra, latino-americana e caribenha. Uma data que existe há 23 anos e que poucas ainda conhecem  esse dia, cuja importância é menosprezada e colocada de lado em prol de uma data universalista que não dá conta das demandas das mulheres negras, que é o 8 de Março. Por outro lado, também é jogada de canto pelo movimento negro. No entanto, há uma resistência das mulheres negras para evidenciar e chamar a atenção para essa data, só não tem o devido apoio da esquerda, dos movimentos feministas, dos movimentos negros, como de praxe.
Foi num encontro na República Dominicana que tudo aconteceu, em 1992, 70 países; mulheres de diversas lugares e etnias, estabeleceram a formação de uma rede internacional entre elas e também essa data como marcador de  luta e mirante de um caminho feminista anti-racista. Um encontro como esse foi um verdadeiro estrondo.  Eu sugiro que vocês assistam ao documentário “25 de Julho – Feminismo negro contado em primeira pessoa” que fala justamente dessa data e da união de mulheres negras brasileiras a respeito do racismo e sexismo diário.

 

by Annie Gonzaga - Aquarelando Fluídos Multicor

by Annie Gonzaga – Aquarelando Fluídos Multicor

Pensando nessa data, podemos instigar a vontade de conhecer mais sobre a trajetória das mulheres negras brasileiras, que fizeram sim uma revolução e proporcionaram o que temos hoje de referências da década de 70, como Lélia Gonzales, que foi uma importante militante negra feminista que não tinha interesse em manter a ordem, se enfiou em vários seminários e congressos Brasil a fora, sempre levando consigo a urgência dos questionamentos pertinentes às mulheres negras. Nesse artigo maravilhoso, a autora Luiza Bairros tece lembranças da militância de Lélia Gonzales e escurece pontos políticos que ela defendia na época como um mirante para nossas formas de articulação política. Lélia nos ensina muito. Nesse sentido, eu vejo que a articulação das mulheres negras vem aumentando expressivamente, penso eu que mais em grupos pequenos e não institucionalizados, e também grupos dentro da universidade (pública e privada).

Mulheres negras, lésbicas e bissexuais, se organizam para debater suas especificidades, como no  II Seminário Nacional de Lésbicas Negras e Bissexuais com data marcada pra acontecer em 28, 29 e 30 de Agosto deste ano. Ou também como o III Encontro de Lésbicas e Mulheres Bissexuais do Estado da Bahia que rola até dia 13 de Julho. São exemplos recentes da organização de mulheres negras para promover estratégias de resistência frente uma sociedade heterossexista, que condena o amor&desejo entre mulheres, que violenta aquelas que ousam rasgar a norma heterossexual de vida. Isso demonstra como o legado das mulheres negras está presente nesses novos passos. E preciso pontuar que, esses “novos” passos são dados por uma juventude inquieta e descontente com o cenário político dos movimentos sociais brasileiros, uma vez que a esquerda está em frangalhos e ainda não cogita descer do alto pedestal que se constrói a forma de atuação das organizações, verticalmente, para ouvir e por em prática as sugestões transgressoras da juventude.
Tirando os jovens de indisciplinados e sonhadores que não sabem de nada, ou que “precisam aprender muito” para assumir algum posto de prestígio. Como se só isso bastasse, um status almejado e incentivado diretamente. A ideia do “manda quem pode, obedece quem tem juízo” perpassa exatamente uma questão etária da qual não se discute, tampouco dá-se ouvidos verdadeiros ao que a juventude vem propondo.

Não é que a juventude não tenha voz, ela tem! Existem e persistências essas vozes graças à organização dessa juventude que cansou de abaixar a cabeça pra qualquer “superior” do movimento e passaram a dar esses passos sozinhos, é claro que passando por uma grave exclusão frente às organizações mais tradicionais. Mas não é uma maioria de jovens que está organizada politicamente, quem dera fosse.
A juventude está nas igrejas, nas ruas em puro abandono social, nas mãos do tráfico, como usuários de drogas nas vielas e na cracolândia; uma juventude desempregada, “desqualificada” para o mercado de trabalho (seja pela cor de pele e  pela falta de um diploma), sendo terceirizada e humilhada em cubículos de telemarketing. A juventude ta aí sendo presa e jogada na fundação, que é tudo, menos casa. A juventude está morrendo e isso não é de agora, menos ainda escrevo eu aqui novidades. Não. É mais uma observação em alerta para os tradicionais movimentos sociais que ainda acham que o formato de uma esquerda deva ser o retrato de um conservadorismo mascarado de progressista mas que dá pouca -ou nenhuma- abertura a questões como o aborto, identidade de gênero, orientação sexual, a legalização da maconha. Realmente fica difícil participar efetivamente de organizações políticas que querem permanecer com suas bandeiras uno hasteadas, com debates rasos e desculpas esfarrapadas de que as diferenças é prejudicial à causa. E o pior é não haver nenhum esforço por parte da militância como um todo em realmente se unir às tantas outras causas. Ainda vivemos no “cada um no seu quadrado”, e uns poucos gatos pingados às vezes se unem num ato ou outro, mas se pararmos pra pensar, dá pra contar nos dedos uma manifestação de rua que há vários setores sociais na mesma frente.  Sejamos sinceros, isso não acontece com frequência significativa que deveria acontecer. Falam-se de uma suposta unificação da esquerda, e de como isso é importante, mas parece que no discurso se perde a noção de que as pessoas são muito mais do que trabalhadoras e trabalhadores, estudantes, sem terra… Como se não houvesse gênero, nem raça, menos ainda orientação sexual ou identidade de gênero que é determinante na interação social. Homogenizar quem já é excluída/o socialmente, enxotando suas subjetividades que são extremamente materiais, é um tiro nos dois pés pra cair de cara e agonizar nas migalhas que restam de uma esquerda ~revolucionária e combatente.

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by Annie Gonzaga – Aquarelando Fluídos Multicor

Com as cotas instituídas, com o PROUNI, FIES, a inserção da juventude negra nas universidades aumentou e eu nem preciso de números oficiais pra comprovar isso. Basta reparar na existência de  coletivos feministas com presença expressiva de mulheres negras nos cursos, coletivos negros com recorte LGBT, coletivos só de mulheres negras… São vários por aí, mas ainda assim, com esse aumento do debate racial e de gênero dentro das universidades, não chegamos perto ainda de ser uma maioria negra e uma minoria branca. Estamos longe de finalizar os reparos aos danos causados pela escravidão no Brasil, mas com certeza as universidades serão polos de pequenas revoluções no espaço acadêmico, assim como nas quebradas tem sido. O que me lembra imediatamente do coletivo Nós, mulheres da periferia composto por 8 jovens de bairros da periferia de São Paulo, que dão visibilidade às questões pertinente das mulheres periféricas. Um grupo que publica textos partindo das vivências e não de teorias, onde enfatizam a necessidade de olhar para si mesmas como percussoras de uma teoria viva e que realmente preenchem a lacuna da representatividade na mídia, que nos é muito cara. A importância de iniciativas como esta se dá pela necessidade de mudanças radicais no fazer político que conhecemos, e sem elevar à máxima do “pessoal é político” a medida em que  vivências, por si só, é um ato extremamente político, de combate e afronta ao sistema racista em que vivemos.
Feminismo interseccional, trocando em miúdos, é basicamente isso: compreender que o racismo é a base que estrutura todas as opressões que dele são derivadas, portanto, não dá pra separar uma da outra e observa-las de só um lado, isoladamente. É preciso entender que nós não somos SÓ mulheres, que podemos ser negras e que disso decorre uma opressão, que podemos ser lésbicas e disso decorre uma opressão, podemos ser transexuais e disso decorre uma opressão específica. Nós somos várias, diferentes, com muito em comum mas também com nossas diferenças. Aliás, preservar as diferenças é extremamente importante para não apagar vivências e culturas. Nos unificar fazendo de conta que as diferenças não existem, ou pior ainda, achar que só ALGUMAS diferenças são relevantes pra luta (como raça e classe) é muito nocivo para os movimentos sociais que pleiteiam emancipação social e equidade. Por isso que eu não vejo como realmente transformador um feminismo que não enxergue o conjunto como um todo e destaque suas diferenças sem dissocia-las. Não vejo. Não dá. Um feminismo que vai às raízes não é aquele que segue ao pé da letra teoria do século 20, mas é aquele que compreende o passado e se atenta demandas atuais que são postas e acolhe feito abraço aquelas que estão excluídas. E não precisa somente ser as mulheres negras encarregadas de interseccionar as opressões e lembrar a todo instante o quanto isso é crucial para qualquer análise social.

A todas que se identificam com essa prática e acreditam que combater uma opressão descolada das outras não leva a nada, não se acanhe e procure referências feministas negras e vejam como elas nos dão caminho para fazer um movimento realmente social que leve em consideração, prioritariamente, as demandas das mulheres negras brasileiras. Porque veja bem, sabemos qual é a cor da mão de obra escravizada no século XVI (e que não deixou de ser até hoje, por assim dizer), sabemos que as mulheres eram relegadas também ao trabalho braçal e doméstico e que isso se estende até agora, sabemos que elas são maioria populacional e de raça, sabemos que as que morrem vítimas da clandestinidade do aborto no Brasil são as mulheres negras e pobres, sabemos que elas ganham menos no mercado de trabalho (seja formal ou informal), sabemos que a perversidade do Estado atua na propagação e solidificação do racismo nas áreas da saúde, educação, acesso ao trabalho e à cultura; sabemos inclusive a cor das vítimas de violência policial e da violência doméstica, que faz desenrolar um ciclo de violência familiar que não é natural. Então, quando tiver bom pra gente, quando tiver bom para as mulheres negras, vai estar bom para as outras também, porque querendo ou não, somos a base que carrega nas costas o fardo racista que é viver no Brasil e ser uma sobrevivente diária, tendo de suportar o abandono afetivo desde a tenra infância até ser submetida forçosamente a trabalhos mal remunerados, sem garantia de direitos trabalhistas, ser exotificada na televisão o ano inteiro, de ser sempre aquela que chefia famílias completamente sozinhas… No artigo “Matriarcado da Miséria” da Sueli Carneiro, expressa exatamente como é o cenário da mulher negra brasileira, sugiro que vocês leiam.

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by Annie Gonzaga – Aquarelando Fluídos Multicor

Acredito que só a quebra do silêncio, a produção de conhecimentos teóricos a partir da vivência de mulheres negras é capaz de propor formas estratégicas de emancipação das mulheres diversas e dos homens negros. Só nossa articulação, interseccionando as opressões, será capaz de tratar e produzir medidas realmente revolucionárias que, contrariando a hegemonia, vai destruí-la e colocar em ênfase mulheres negras como protagonistas.

Mulheres negras: UNI-vos! 

Que não deixemos que a régua de cores meça nossa negritude e nos separe umas das outras. E que, nos momentos de aflição, nos lembremos que somos pertencentes a um passado recente latino-americano, e de uma sociedade brasileira miscigenada como tentativa de um embranquecimento falho, que promoveu a ideia de que a tonalidade mais clara deixa de fazer parte de uma identidade negra. Não dá pra nos enganar, porque a branquitude sabe exatamente quem é branco e quem não é, só nós, povo preto, que tem ainda uma dúvida em se afirmar negro. Mas essa insegurança e confusão identitária tem um motivo, ela trabalha a serviço da branquitude racista, tornando difícil a pessoa se enxergar como tal, e com isso, não tomar para si todas as questões que envolvem ser uma negra/o brasileira, porque é interessante manter na contenção quem “não é tão preto assim”, porque quando juntar todo mundo de verdade, a bomba explode!

Deixo pra vocês a música “Mulheres Negras”, com letra do Eduardo F.C, interpretado lindamente pela Yzalú, como uma mensagem de força para não sucumbirmos às dificuldades impostas pelo racismo, que teima em nos enfiar pra baixo, mas que não consegue e perde miseravelmente quando nos damo as mãos e puxamos umas às outras pra luta.

 

“Mulher negra não se acostume com termo depreciativo
Não, não é melhor ter cabelo liso, nariz fino
Nossos traços faciais são como letras de um documento
Que mantém vivo o maior crime de todos os tempos
Fique de pé pelos que no mar foram jogados,
Pelos corpos que nos pelourinhos foram descarnados
Não deixe que te façam pensar que o nosso papel na pátria,
É atrair gringo turista interpretando mulata “

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