Quando uma mina preta avança, nenhuma outra retrocede

Quando uma mina preta avança, nenhuma outra retrocede


 

Eu gosto de cantar bem alto a parte da musica Flor de Mulher da Luana Hansen “Ninguém vai nos parar!” a letra toda mas essa parte saí do meu âmago. Porque ninguém vai me parar, venha o que vier. Foda-se. Vai continuar sendo mais difícil, mas eu enfrento porque não tô sozinha agora e ninguém vais nos parar! Mas sabe o que pode mesmo nos parar?! Uma outra mina detonando as iniciativas de outras, como se não bastasse o sistema racista&machista…. Isso é cruel e eu não aguento mais ver isso rolando, gente. Vocês se beneficiam DO QUE fazendo isso?! Não importa se discorda de x ou y, não bombardeia auto-organização das minas preta e indígena, gente! Não é possível que esse ataque esteja vindo de outras minas. Sério, isso é inaceitável, manas! É desrespeitoso, é desleal, é cagar e andar pra outra mina preta, sabe? De que adianta grita que é “nóis” se na hora que discorda vai lá detonar o o castelo de areia da amiguinha? Porque não consegue construir ou deixar que seja construído?! Deixa mana, deixa todas as minas se organizarem! Não bota empecilho, não problematiza o que não precisa! Fique contente por isso, vibre por isso, e se puder e quiser… Faça parte também! Mas chega na construção verdadeira mesmo, sem ego ou disputa de espaço porque nós já NÃO temos nenhum espaço portanto, não da pra  rolar disputa entre nós!

A gente pode discordar de tudo, menos de que é necessária nossa auto-organização: do formato do encontro ao debate político, seja da forma que for, não impeça que as mulheres se organizem e tratem do que elas entendem que precisam. Mas é bom lembrar que por mais que divergimos em questões teóricas, nosso inimigos continuam os mesmos e as nossas estratégias nunca podem mirar em uma mulher, sobretudo as mulheres negras, mulheres trans* e travestis.  As nossas formas de se articular em coletivo sempre serão diversas, mas a gente não pode achar que somos inimigas umas das outras. A sociedade INTEIRA bate na gente, nas mulheres negras todinhas, com suas devidas especificidades pq o racismo faz questão! MAS BATE! E a gente? A gente devolve em quem?
Estamos entrando numa pilha de devolver umas nas outras, sem prestar atenção no quão nocivo isso é pra cada uma. Porque nossa raiva é tamanha e eu to ligada, e não tá sobrando pedra sobre pedra, nem entre nós mesmas! Isso pra mim é inaceitável, é triste, é de adoecer. Como se a realização da outra não fosse boa pra mim, como se aquilo não pudesse acontecer sem minha presença, e aí tudo é ruim e não presta. Como pode gente?!  É inconcebível pra isso, não dá pra engolir de boas assim, não dá pra achar ok essas atitudes que estão tomando proporções devastadoras, e não é exagero.

Parece que ninguém tá satisfeito com nada, nenhuma vitoria é comemorada com fervor, nenhum passo é brindado, sabe.. Nadinha?! Nada do que fazemos, no que conseguimos está bom, sempre tá faltando algo.Estamos em busca da “vitória perfeita e completa” pra que aí sim possa se comemorar?! Exigimos cada vez mais de quem tá do nosso lado e acabamos exigindo menos do racismo&CIA. O tempo depreendido em questionar nós mesmas, não tem sido producente no sentido de que estamos tentando derrubar a nós mesmas, e isso eu escrevo com muita tristeza, porque ver isso acontecendo dói demais. Mas eu escrevo também como apelo às outras manas por aí, pra que repensem suas práticas para com as mulheres a sua volta.  Se desculpar, reavaliar sua postura para com a outra mana tem que ser constante, senão nenhuma construção coletiva da conta de se firmar.  A construção do acampa tem me dado essa visão do quão é necessário revermos nossas convicções em prol do coletivo, pra se chegar num plano comum e que considere várias ideias, pra que seja efetivo e representativo mesmo. Por isso eu desabafo porque não sei quanto tempo mais a gente pode durar nesse ring, e eu não quero ficar nele… Quanto tempo vai levar pra percebermos que diferentes estratégias são mais fortes quando miradas ao foco certo? Quando vai cair a ficha de que estamos na luta todos os dias, não só eu, não só você, mas nós todas?! Quando é que as birras pessoais vão deixar de influenciar no ação política? Não acho que ninguém tenha que se amar deliberadamente, mas acho que consciência política tá aí pra isso, pra gente não  dar tiro no próprio pé e ficar capengando sozinha.

O genocídio da população negra tá instaurado há tempos, e tá bem difícil de regredir essa cena… E nós vamos ficar mesmo de bico umas pras outras e não vamos lutar juntas contra essa chacina anunciada?! Promover doação de absorventes pras mulheres encarceradas, não pode ser feita por todas nós? Só pode quem é isso ou aquilo? A mídia racista escancarada, nós não vamos nos unir pra denunciar essa merda?! Tá errado pra mim se a gente não converge onde precisamos. Há diversos grupos pra exatamente dar conta da diversidade, mas -de novo- nosso inimigo é o mesmo. O racismo que bate aí, vai bater aqui também. E quando uma mina preta avança, nenhuma outra retrocede, gente, acreditem!

 

"08/08 - Grande roda de conversa: debatendo racismo no feminismo branco em São Paulo/SP" - by Jamille Nunes

” Registro  final 08/08 – Grande roda de conversa: debatendo racismo no feminismo branco em São Paulo/SP” – by Jamille Nunes

 

 

 

 

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