Preta, Gorda, Sapatão e Riot Grrrl!

Preta, Gorda, Sapatão e Riot Grrrl!


Uma reflexão e desabafo sobre invisibilidade e resistência em espaços que valorizam e celebram uma existência lésbica branca e magra.

Por Bah Lutz

 

Desde muito nova encontrei na música uma grande paixão e foi através do punk rock e do hardcore que eu me aproximei ainda mais de uma cena musical com contexto político. Assim conheci o Riot Grrrl  que me abriu as portas do feminismo quando tinha uns 14 anos e me ajudou a atravessar a fase mais tensa da minha vida até então: a descoberta e entendimento da minha sexualidade.
Eu passei minha adolescência acompanhando uma “bolha musical” que resistia em meio a misoginia e lesbofobia da cena hard core e punk. Várias bandas que eu escutava eram formadas majoritariamente por minas lésbicas e boa parte das letras eram sobre suas crushs, suas saídas de armário e militância feminista anti lesbofobia. A forma como essas minas se portavam, seu estilo e atitude foram uma referência muito importante  e crucial para mim, porém, uma coisa sempre me incomodou e saber nomear esse incômodo é algo super recente. Praticamente todas as minas sapas do riot grrrl eram brancas e magras e por isso eu nunca me reconheci de fato no rolê, mesmo o riot sendo a principal referência musical e política na minha vida. Depois que essa ficha caiu, eu compreendi a sensação de insatisfação que eu tinha com o movimento e com a minha própria banda. Quando eu entendi essa angústia, tive nitidez sobre o que eu buscava vivenciar e construir politicamente na cena e fazer com que minha presença fosse uma forma de resistência e me fazer visível, não só de uma forma individual, mas representando os grupos políticos que sofrem as opressões que eu sofro enquanto PRETA, GORDA e SAPATÃO. E a partir desse posicionamento eu transformei a forma com que me referenciava nessas bandas e nessas minas,  comecei a pesquisar outras bandas com front girls negras e/ou gordas, e isso mudou completamente a forma como eu ocupo o palco e a confiança que seguro o microfone. Ver essas minas me fez entender que se mostrar pro mundo politicamente enquanto preta, gorda e sapatão é uma forma de resistência e uma luta radical por visibilidade. Então após 10 anos de banda, pela primeira vez subi ao palco sem camisa, com a barriga de fora, cantando, o que para mim foi um desabafo e uma maneira de fazer visível minhas experiências e foi delicioso me sentir tão livre e forte, de cantar sobre mim num espaço que formou boa parte do meu referencial feminista, gritar em alto e bom som que eu sou preta, gorda e sapatão. Mas é nessas horas que nossa tentativa de visibilidade esbarra nos privilégios da branquitude magra que está acostumada a ser o centro das atenções e sempre esteve nos holofotes políticos e a nossa presença passa a ser um incômodo, um mal estar, quase uma ~torta de climão~.

 

by Hanna Halm

by Hanna Halm

Logo após do show, uma mina branca e magra me abordou e disse que curtiu muito o show mas que seria legal se eu cantasse o último verso da música substituindo a letra por “branca, magra e sapatão”, por que segundo as palavras dela “Nós também existimos”. Eu fiquei tão chocada com essa frase que nem respondi e poucas pessoas sabem desse acontecido, fiquei dias pensando em tudo o que eu poderia ter respondido na hora. Tentei buscar a melhor maneira para responder, de educar, de quebrar o pau…. mas a resposta é estupidamente óbvia. É claro que vocês (brancas, magras, sapatonas) existem. Existem em todos os espaços LGBTS, seus corpos brancos e magros são celebrados como a única lesbianidade possível e aceita fora e dentro dos meios libertários e políticos. Vocês não só existem mas se fazem visíveis e representadas. Eu consigo nomear rapidamente pelo menos 20 nomes de lésbicas brancas e magras mundialmente conhecidas mas não consigo pensar em 5 negras e gordas com a mesma visibilidade. Ser preta, gorda e sapatão é ser a minoria da minoria, ser invisibilizada em meio aos invisíveis, é perceber constantemente nossa presença como um insulto e assim mesmo forçar nossas corpas nos espaços para quebrar a hegemonia racial e corporal dos espaços lgbt, punk e hard core. É botar nossas corpas sem medo na linha de frente e gritar pela nossa sobrevivência e como diz a própria letra da música:

“sou sapatona preta, sem vergonha da minha existência, 102kg de pura resistência. E a gente segue. ­Preta, Gorda e Sapatão corpo político, desviante, fora do padrão que não encaixa em sua cor, nem em sua relação todos olhares acompanham minha movimentação vigilantes, revelando a minha condição preta gorda sapatão preta gorda sapatão preta gorda sapatão minha resistência é minha revolução afetos negados, emoções interrompidas o dedo apontado na cara, o dedo cravado na ferida sou sapatona preta, sem vergonha da minha existência 102 kilos de pura resistência!”

 

Bertha Lutz – Preta, Gorda e Sapatão – show no 2º Distúrbio Feminino Fest (28/07/2016 – SP)

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