#18 compartilhado

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Empoderamento é aquilo que eu buscava desde meus nove anos, quando senti que meu corpo era um problema para mim. Agora, na maioria das vezes, sinto-me bem com meu corpo e meus pelos. 

 

 

Anônima

Eu tinha nove anos de idade, devia ser o primeiro dia quente depois de um período longo de frio. Vesti meu shorts do uniforme escolar e fui pra aula. Quando entrei na sala, antes do sinal tocar, recebo o seguinte comentário de um menino que eu tinha por amigo:
-Nossa Fulana, mas que pernas mais depiladas!
Quem estava em volta deu risada. Ri também e corri para sentar no meu lugar, com muita vergonha de ter ido de shorts. Chegando em casa, contei o ocorrido para minha mãe, que ficou brava com o menino e disse que minhas pernas eram normais e estavam longe de precisar serem depiladas. Minha mãe repetiu aquilo algumas vezes, durante aquela semana.
Eu tinha nove anos e passei a odiar minhas pernas, passei a odiar pelos e passei a ter medo de que as pessoas notassem eles no meu corpo. Nesse ano e no seguinte, não usei shorts um dia sequer, na escola (posteriormente, devido ao uniforme do time de futebol do colégio, usei shorts, mas pouco, na maior parte das vezes com o meião). Na viagem de Formatura da 4ª série, clareei os pelos das pernas, e pouco mais de um ano depois, comecei a depilar as axilas com cera quente. Não cogitava usar gilete, porque “engrossava o pelo”.
Para mim, a depilação com cera quente só era boa nos primeiros dois ou três dias, depois disso cresciam os primeiros pelos, que eu acreditava serem nitidamente visíveis, ou que pior: nasciam “encravados” (com a maior parte em baixo da pele), deixando a região vermelha e inflamada, como uma espinha. Portanto, eu “só podia” usar regata por poucos dias. Para prolongar esse tempo, comecei a usar uma pinça, para retocar a depilação.
Com esse hábito, desenvolvi uma espécie de TOC, que depois fui conhecer pelo nome de Picking (http://migre.me/gU9Pr). Basicamente, ficava presa nessa atividade, num frenesi que só acabava quando eu conseguisse tirar todos os pelo encravados e alguns que considerasse “visíveis demais”. Tirar um pelo encravado pode ser bem difícil.
A adolescência de verdade foi chegando, e o Picking não se restringiu a região das axilas, mas à todas aquelas áreas nas quais “meninas não poderiam ter pelos”. Odiava quando meus amigos iam à piscina sem um aviso prévio, como uma viagem, pois geralmente eu tinha algum machucado na região abaixo do umbigo e que o biquini não cobriria, e nem sempre eu tinha base de maquiagem comigo. Tornava-se um hábito cada vez menos relacionado aos pelos, e cada vez mais ligado ao meu estado emocional.

Com o tempo, passei a ter várias cicatrizes redondas, claras e pequenas nas tais regiões. Minhas amigas sabiam, em linhas gerais, pois eu tentava tratar com indiferença, mas ficava preocupada: e quando eu tirasse a roupa pra um cara, o que ele iria pensar? Quando estava no colegial, meu namorado inocentemente perguntou o que eram “essas manchinhas”, e pela primeira vez estive a vontade para contar a alguém. Ele acalmou meu choro e me fez prometer que jamais ficaria com umx meninx que se importasse com tal fator estético.
Vi na depilação “permanente” (laser e fotodepilação) o tratamento para esse meu vício emocional. Por mais de um ano, fiquei relativamente tranquila, com machucados bem menos constantes, mas por outro lado, me sentia dependente de uma coisa nova, que além de tudo, consumia muito dinheiro. Eu tentava fugir de um “medo estético”, me submetendo a um tratamento igualmente estético.
E então, com 19 anos, entrei em contato com o Feminismo. Mais do que um movimento, as ideias e os ideais, tive contato com mulheres incríveis e empoderadas sobre seus próprios corpos.
O que é Empoderamento? Pensando nas minhas vivências, foi relativamente fácil de entender. Não precisei de muito mais do que duas conversas rápidas, para perceber o que aquelas mulheres que não se depilavam queriam dizer e experimentar: muito além da estética, elas estão quebrando imposições sociais, que mesmo que discretas (como um colega de sala que faz um brincadeira com o corpo de uma menina), controlam modos de agir, pensar e sentir de homens e principalmente, de mulheres.
Empoderamento é aquilo que eu buscava desde meus nove anos, quando senti que meu corpo era um problema para mim.
Agora, na maioria das vezes, sinto-me bem com meu corpo e meus pelos. O Picking em parte importante está superado. Entendo que eu ainda esteja no começo de um processo, afinal ainda penso nas pessoas que verei, antes de escolher usar uma regata. Mas o bom desse processo é saber que eu posso me depilar se quiser, que eu tenho direito a escolha, que eu só preciso passar por cima dos limites que me foram impostos, seu eu me sentir à vontade pois, como diria uma amiga, “Liberdade é escolher ao que você quer se prender”.

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