Um texto que não é sobre militância


Desde pequena nunca fui obrigada a falar de como eu me sentia. Digo, minha mãe e eu não construimos uma relação íntima totalmente. É estranho explicar, mas a gente se entende das nossas maneiras. O caso que, dadas as circunstâncias na minha vida toda, hoje eu acho que me tornei uma muralha.

Não que isso seja propriamente ruim, mas às vezes eu gostaria de ser mais aberta pras pessoas que eu gosto. Quando se trata de mim e do que eu sinto (afetivamente e etcs), sou bem fechada.

(agora mesmo já digitei um parágrafo e apaguei tudo porque achei besteira demais).

Essa é a questão (talvez): Eu sempre acho que é “besteira”. Quando me perguntam se eu estou bem, sempre digo que sim… Embora algumas vezes já me disseram: mas você não parece tão bem… o que há ? E eu, prontamente dava uma desculpa. Hora por achar que não teria tempo para explicar, hora por achar idiota demais, hora por não me sentir tão a vontade assim com a pessoa… Várias desculpas, enfim.

 

Isso tudo pesa porque eu não sei explicar e fica parecendo que eu sou pura rocha. E eu sou, atualmente tenho consciência disso. Às vezes acho que faço cosplay da minha mãe, sabem… Eu sou igual a ela. Minha mãe é durona, nunca expressa seus sentimentos, também não é boa na arte do afeto… Ela tá sempre trabalhando e pensando numa melhor maneira de realizar as coisas. Essa senhora nunca para.

Eu também sou assim. Vivo fazendo coisas diversas, principalmente agora nesse período da minha vida onde a militância ajudou a desenvolver partes de mim que eu nem sabia que existiam. Me apeguei a isso e deixei uma outra parte de mim do outro lado. Digo, sei que ela existe mas não quero lidar com as implicações que ela traz. A parte que eu falo é a afetiva-sentimental-sei-lá-o-que.
Há coisas mal resolvidas na minha vida.
No entanto, eu não consigo olhar muito bem pra elas… Sei da existência mas fica ali no quartinho dos fundos, sabe?

Acho isso triste. É o meu ponto fraco porque envolve muita coisa além de afetividade e sentimentalismos…  Envolve reconhecimento de erros e acerto, e isso é muito importante. Envolve certezas, (in)seguranças, medos… Auto-estima também tá nesse role. Envolve principalmente traumas.

Traumas.

Situações pelas quias eu passei e que me deixaram traumas mas que eu não não as enxergo como tal. Não as enxergo como tal porque me deixaram marcas, lacunas. E é bem difícil admitir isso porque eu não sou de admitir fraquezas, entende? Isso é foda. (perceberam como eu chamo meus traums de fraqueza? é o nome certo? as vezes acho que não)
Acho que eu sou orgulhosa demais. E além disso, eu sou inquieta e demonstro segurança justamente pra não ser questionada sobre minhas fraquezas. É automático, não fico calculando… Já percebi isso.

Que bizarro, né?

Sinto falta das pessoas. De conversar pessoalmente, de construir amizades depois de festas… Sinto falta disso. Somos tão mais virtuais do que presenciais ou é impressão minha? Sei lá… tudo bem também, amizades virtuais costumam ser muito boas e eu não tenho nada contra!
Mas falo das pessoas que eu conheço e só conheço. E essas pessoas são legais! Mas eu não consigo me aproximar ou até demonstrar que quero uma aproximação que gere um laço de amizade. Isso também é automático, não saber demonstrar algo.

Esses dias comentaram comigo que pareço ser brava. Outro dia comentaram que eu demonstro “não estar afim” (isso é a respeito das gata). Mas aí me pego numa sinuca de bico porque… Como eu sou, então? Eu sei perfeitamente que sou tímida (sim, eu sou, do meu jeitinho) e que várias vezes eu fiquei quieta porque “não sabia o que dizer pois tudo que eu pensava parecia besteira”. Então fico quieta. Como é demonstrar estar mais aberta para as pessoas? Eu realmente não descobri isso ainda. Aguardo.

O fato é que muita gente conhece aquilo que eu escrevo no facebook, no tuiter, aqui… Muita gente já me viu participando de mesa de debate, de manifestação, de audiência pública. E na maioria desses casos, eu tenho uma postura de embate. Eu mostro isso no meu tom de voz no debate, nas minhas colocações no facebook, nas minhas reclamações no tuiter, nos posts aqui no blog. Foi isso que eu construi e eu me orgulho, nunca vi problema.
Mas eu percebi que tornei a militância o meu maior escudo e que me apego a isso como quem se segura num galho de árvore em meio a um alagamento da avenida principal que é essa minha vida. Mas o ideal é que eu não usasse uma coisa para encobrir a outra, penso eu…
Isso dificulta tudo… Minhas relações interpessoais demoram a acontecer. Relacionamentos afetivos-sexuais também são um cagaço porque demora-se muito para me conhecer realmente, e né… ninguém é obrigada, convenhamos.

Imaturidade, eu diria… Pode ser.
Insegurança? Sim.
Solidão…? Também…

Agora tô aqui no meu quarto, não tem mais ninguém em casa. Já chorei um pouco e até isso eu não me permito muito. Fumo meus cigarros despretenciosamente enquanto escrevo isso. Fico procurando nomes pra essa minha sensação mas eu nunca acho e fico no vácuo. Odeio me sentir assim… Sem conseguir explicar o que eu sinto a mim mesma, como vou contar as outras pessoas? É foda.

Morar em São Paulo, ter responsabilidades e preocupações também me deixam num estado anormal de espirito. São tantas coisas que nem consigo enumerar… Acho que tenho um infinito de frustrações em mim. E que bosta, né?

Enfim…

chorume completado com sucesso!

 

PS: Nem só de militância se faz esse espaço, sorry.

 

12 Comentários

Adicione os seus
  1. Rafaela Cotta

    Faço das suas, as minhas palavras. Nunca falo por achar que tudo que vou dizer é ridículo, sem sentido e que não tem nenhuma importância.
    Um dia a gente vence isso e não acho que seja uma questão de mudar, mas de nos tornarmos nós mesmas.

    Mil abraços!!! ♥

  2. Isabelle

    Identifiquei-me bastante com o seu texto, tenho imensa dificuldade em estabelecer amizades. Namorar, então, faz tempo que não sei o que é isso. Sou bastante tímida, mas, o que torna tudo mais difícil é que não consigo mais confiar/acreditar nas pessoas depois que tive alguns traumas. Passei boa parte da minha adolescência em depressão e eu era tratada como uma “coisa” pela minha família, inclusive pela minha mãe. Saí da fase crítica mesmo sem tratamento (eu tinha 13-14 anos na época, parei de estudar e não saía do quarto, dormia durante o dia e ficava à noite acordada, só chorava, etc), mas as sequelas permanecem. Atualmente estou com 30 anos, tenho poucas amizades e sou muito reservada, embora esteja sempre sorrindo (o que “engana” quem não me conhece e faz pensar que está tudo bem). Quando vejo os meus colegas de infância bem-sucedidos, casando-se e felizes, sinto-me uma fracassada… dá a impressão de que a minha vida ficou estacionada, mas estou tentando seguir em frente.
    Enfim, acabei fazendo um desabafo…
    Adoro o seu blog! Um abraço.

  3. Aline

    Olá! Descobri teu site agora e me li do começo ao fim no teu post. Que dificuldade hein, olhar para aqueles pequenos momentos do passado e, por mais pequenos que eles pareçam, admitir que colhemos as dores deles até hoje! Também estou na busca de uma solução para tal dilema, pois sinto que uma parte significativa das minhas relações está se deteriorando por isso… Espero que possamos encontrar uma resposta antes que seja muito tarde 🙂 Abraço e força!

  4. Lobinha

    Uma boa terapia é sair da Internet um tanto. Tive um transtorno de personalidade quando era mais nova por não saber mais quem eu era por conta do meu “eu” virtual. Me sentia duas pessoas tranquilamente, duas personalidades, e foi um longo caminho para saber que as 2 eram eu.
    Eu dizia que só conhecia pessoas de dia, e é uma verdade até hoje. Fiz amigos tomando café da tarde, passeando no shopping, indo no sesc, jogando videogame na casa de alguém, indo no ibira… Mas só fiz colegas indo pra cinema a noite, balada, bares…
    Essas colegas eu saia de dia depois para conhecer de verdade, descartava a noite. E a maioria eu conheço e me conhecem um tanto que é diferente da gente na night. O que geralmente buga as pessoas sobre o que eu parecia e o que sou realmente.
    E eh foda mesmo se abrir e se permitir, não sei lidar com relacionamentos longos faz tempo… Mas mesmo assim me jogo. Por mais frustrante que possa ser o desenrolar é sangue correndo pelas veias e é uma chance que estamos dando pra vida nos tirarando da vida de zumbis de SP.

  5. Luciana

    Eu gosto muito daqui. Sempre leio o que você posta e me reconheço muito.
    Te adicionei no facebook e te admiro… você passa força…
    Ia te mandar um texto dizendo mais ou menos isso que você escreveu (só que sobre mim), mas fiquei com medo. Sou gorda, sou lésbica e me privo de tudo na vida. TUDO. Isso me dá uma raiva de mim enorme… Daí leio esses textos seus e me identifico com você. Logo, minha tristeza diminui e sei que existem duas pessoas no mundo parecidas… (pretensão a minha, né?)
    Em relação a tudo que você falou, espera. É isso que eu faço… (:

  6. Keice

    Engraçado… eu me achava super estranha por me sentir exatamente do modo como você descreveu. Agora eu sei que preciso melhorar isso em mim, porque dificulta muito minha vida. Agora eu sei que é normal se sentir assim, e eu não devo ficar empurrando para debaixo do tapete.

  7. Jéssica Ipólito

    Oi Luciana,
    não tenha medo. Pode me mandar o texto mesmo assim… E pode, inclusive, conversar comigo pelo facebook. Tô sempre à dispor.
    Compartilhar essas coisas é uma forma de nos deixar mais leve. Não é pretensão sua não.

    Me chama pra bater papo! 😉

    beijos!

  8. Jéssica Ipólito

    Oi Keice,
    é melhor a gente reconhecer a existência dessas feridas e olhar pra elas com o devido cuidado e carinho afim de trata-las, senão, elas nunca melhorarão.

    Fique bem,
    um beijo!

  9. Keylla

    Jessica, dia desses eu vi um programa no Discovery Home and Health que tinha duas irmãs gêmeas idênticas, uma hétero toda mulherzinha e ia se casar, e a outra homo, cabelo curto e roupas masculinas, e ia ser sua madrinha; estavam num impasse pois a irmã teria que colocar um vestido pra ser madrinha, coisa que ela não fazia há anos. Adorei, achei o máximo as duas irmãs. Aí hoje achei esse seu post e, em algum momento, pensei: Achei minha gêmea lésbica. Sou hetero, casada há 12 anos, mas há bem pouco tempo atrás eu era essa pessoa aí que você descreveu. Ando num processo pesado de reconstrução da minha autoestima, reconhecimento de quem eu sou, de como cheguei até aqui, de encarar minhas questões mal resolvidas que eu também insistia em manter num quartinho. Ano passado tive uma catarse (uns chamam de depressão, mas pra mim era só uma catarse, cada um com seus eufemismos) de chegar a ficar dias deitada num quarto escuro, e de repente parecia que eu estava trocando de pele; como se eu saísse da pele que colocaram em mim, que me convenceram a vestir. Saí frágil ainda, mas sem medo, sem dor. Desde então estou cuidando da pele nova que vai nascendo, ainda um pouco sensível, mas cada dia mais forte, mais bonita, cada vez mais eu.

  10. Mah

    Queria não ser repetitiva dizendo que sinto o mesmo, mas não tem como. Acho que a gente é tão cobrada por todos os lados que não tem jeito de não se sentir menos forte diante das inseguranças e questões afetivas mal resolvidas. Na minha adolescência o que eu mais queria era ser aceita e fazia de tudo para conseguir isso. Como não deu certo, fui aos poucos fazendo o inverso: impedindo que as pessoas entrassem DE VERDADE na minha vida. Quando surge um problema, uma neura, finjo que não está rolando nada, encaro como coisa minha, choro sozinha, pra não ter que falar minhas questões mais profundas pra ninguém. Isso é uma bosta porque não é sempre que dá pra aguentar o tranco sozinha.
    E só pra completar: caramba, como é bom ler o que você escreve! Me faz repensar tanta coisa, é quase uma terapia. Você podia até cobrar, ia ficar ryca rapidinho. rsrsrs

+ Deixe um comentário