Todo início de semestre eu penso em desistir desse curso: sobre estudar Gênero e Diversidade (UFBA)

Todo início de semestre eu penso em desistir desse curso: sobre estudar Gênero e Diversidade (UFBA)


Esse era pra ser um texto positivista, incentivador e alto astral! Sinto muito desaponta-las, mas não será exatamente assim… No entanto, eu vou tentar não ser pessimista, manter a linha e segurar a barra pra que vocês entendam qual é a real do curso que eu estudo atualmente: bacharelado em Gênero e Diversidade (UFBA). 

Esse texto começou a ser escrito dia 19 de Abril, quando eu ainda estava curtindo as férias na casa da minha mãe no interior de SP. Cheguei a comentar no facebook que escreveria sobre e se alguém tivesse alguma pergunta, que me mandasse ali nos comentários pra eu responder nesse texto. Pois bem… As coisas mudam e eu não consigo escrever friamente, deixar de lado o que tô sentindo, maquiar as sensações. Não serei leviana comigo mesma, não precisamos disso, néa….

Acontece que todo início de semestre eu quero desistir na primeira semana de aulas. Quem nunca!?  Com certeza você aí, estudante, me dará a mão nessa ciranda. O fato é que eu fico agoniada em cada apresentação de disciplina; as professoras do curso fazem questão de mostrar tudo bonitinho como será a disciplina ao longo do semestre e isso é ótimo! Não fosse pelo fato de que, todos aqueles autores e autoras, me deslocassem pra um lado muito maior desse abismo de gênero e raça que vivemos. Exatamente aquilo que estudamos no curso, é o que se acentua mais a cada semestre. Estudar Gênero e Diversidade não faz de ninguém isenta de absolutamente nada; só faz a gente ter consciência das merdas (mas algumas pessoas não tomam essa dose, mesmo estando nesse curso!) que praticamos diariamente com a mesma coragem de continuar. E continuamos, ô se continuamos! Mas eu acumulo angustias e ressentimentos, pois ao longo do tempo foi se evidenciando as precariedades e defasagens… É claro que há um bocado de expectativa nesse recinto, mas há também questões práticas que precisam ser revistas; mas com esse texto eu não tenho intenção de fazer levantamento de dedo nenhum, ainda mais sem estar frente a frente e nem mencionar o nome. É feio, não gosto. Então vai ser assim por alto mesmo, porque a vera acontece fora daqui, e é isso que importa no final das contas: que não se limite ao virtual, e eu nunca me furtei disso.

Guillermo Meza (1917-1997) Las majares, 1951 óleo/ tela 100×70 cm | Colección Blaisten

Ainda vemos os programas disciplinar terem cota de mulheres negras nas bibliografias, e olha que quando eu comecei a estudar em 2010 nem isso tinha (imagine quem estudou há 20 anos atrás?!). Por essas e outras eu não comemoro. É o que deve ser feito, colocar intelectuais&autoras negras para serem lidas.   Então, a cada disciplina nova, dou uma busca pra saber a carinha das autoras e autores indicados e não há nenhuma surpresa a branquitude de séculos no viço da pele. E então eu balanço entre me achar louca ou radical (que no final, da no mesmo que louca) por achar que não deveríamos ler esses autores do século 17, 18… Que há tanta produção acadêmica e não-acadêmica para aprender a como  ser “profissionais capazes de formular, acompanhar e monitorar projetos e ações de materialização de direitos, imbuídos de uma perspectiva crítica de gênero e diversidade, ou seja, em suas interfaces com raça/etnia, idade/geração, sexualidade/orientação sexual etc.  e a gente ali, lendo uns caras que defendia escravidão pra depois ler outras mulheres (brancas) que vão fazer uma crítica feminista, mas que novamente estarão endossando um discurso hegemônico… e que a gente, em discussão, pode até apontar onde tá errado… mas até lá, vamos absorver o modo de fazer. E tem que gente que expeli, tem gente que não, só absorve. E aí se tivermos uma boa sorte, nas últimas unidades do programa, vai aparecer uma pensadora negra, e com sorte, teremos um destrinchar bom do seu texto em questão.
O problema pode estar também em esperar uma Universidade pronta, ou que vá absorver os incômodos por osmose só de me ver contorcendo a face e o corpo naquelas cadeiras desconfortáveis. E é nesse ponto que chego e que  me vejo na contradição de expor essa vontade de morrer (frustração, você por aqui!)  e por não conseguir fazer nada para altera-lo. Muito embora essa cobrança também significa algo, mas é importante que ela exista pra me fazer movimentar pra algum lugar. Neste momento, então, movimento eu e tantas pessoas em direção a crítica ao currículo do curso, às práticas pedagógicas, às posturas de professoras, críticas em relação aos textos apresentados…Uma série de coisas sendo expostas para apreciação do debate, que é fundamental.

Pensa numa pessoa agoniada com isso tudo!???! Sou euzinha. 

MAS

By Saner

Eu gosto desse curso; me empenho muito mais em manter minhas leituras e trabalhos feitos do que procurar a crush pra dar uns beijos! E eu falho miseravelmente em ambas atividades, mas me esforço muito mais pra conseguir cumprir tudo que exigem nas aulas. É bem difícil porque a carga de leitura é pesada, as discussões em sala são de fritar o cérebro, e as avaliações te fazem parecer uma pessoa insana nas últimas semanas de aula. Contudo, entretanto, toda via, SUPER INDICO! Faça esse curso se você gosta também! Só não vá achando que vai ser melzinho na chupeta, viu!? No primeiro semestre eu chorei largada porque era tudo muito diferente pra mim, tinha impressão de que só eu não sabia, todos os textos eu li mais de duas vezes (e alguns eu abandonei mesmo porque não entendi foi nada, até hoje) pra conseguir elaborar qualquer raciocínio; me senti burra o tempo todo e ainda luto contra isso, mas nos dois primeiros semestres eu achei que ia afundar na minha própria ignorância. Tanto que minhas notas no primeiro semestre foram bem fracas, valha-me deusas das bolsas de mestrado! O segundo semestre foi um caos e eu nem sei como fui bem melhor em todas as disciplinas, com direito a duas notas 10 (DEZ?????!!!!!). Foi estranho, em suma, não sei como isso aconteceu porque eu me senti uma bostinha. Agora que o terceiro semestre começou eu não estou sentindo nada… Espero que essas coisas ruins não me balance tanto porque eu tenho labirintite e caio fácil (também me levanto fácil, porque né!).

 

 

♥  EDIT DO BEM ♥: Eu não entrei no mérito aqui de explanar sobre os conteúdos aplicados em sala de aula, porque apesar das minhas chateações,  tem sido satisfatórios na maior parte do tempo.  Bem como não entro (ainda) em como o conceito de gênero é abordado, porque gente… Seria enxugar o curso, mastigar e soltar tudo babado  apresentando pra vocês  (éka!). Algumas coisas eu quero trazer à discussão na medida em que puder, na medida em que conseguir elaborar melhor conceitualmente as coisas. Por enquanto, saibam que essa graduação é pra gente ocupar mesmo, principalmente as minas as mana as bixa pretas indígena LGBT……….

 

Agora eu vou elaborar mais o lado racional e não apegado do assunto, falando mais do curso e menos de mim. Essas respostas fazem parte do ~FAQ BGED~ que pedi sugestão no facebook.  

Percebam que não sou 8 ou 80, eu sou 880! (rsrs!)
E eis me aqui Senhoras:

 

HISTÓRICO DO CURSO

Pra vocês se situarem e entenderem em que momento o BGED surge, é preciso saber que há um histórico de luta e resistências políticas-acadêmicas anterior à existência dessa graduação e que são bases para que continue existindo. O Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM) fundado em 1983, foi é responsável pela criação, estruturação e manutenção do bacharelado que teve sua primeira turma iniciando os estudos em 2009; também implementou a Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM). É assim: O NEIM materializou o PPGNEIM e o BGED, ou seja, dois campos de trabalho preciosos para os estudos feministas, gênero e sobre mulheres. Pra quem quiser conhecer melhor, basta acessar o site do BGED, do NEIM  e o PPGNEIM que tem tudo mais completo e detalhado do que eu poderia fazer aqui.

 

NEM TUDO SÃO FLORES 

 

Por ter essa história toda, o curso carrega hierarquias na organização, não só no que diz respeito à cargos ocupados, mas muito pelo que a história “nos conta”. Não pensem que por ser um curso em gênero, feminismos, que estaríamos livres das práticas sociais arcaicas e verticais, a regra ainda é essa. A exceção é um presente! Um quadro de professoras e professores contemporâneos tem chegado e oferecendo a  possibilidade de um respirar diferente, uma perspectiva mais atraente que aspira mudanças. Mas tudo é um longo processo e nós, estudantes e professores, somos a bomba impulsora  das transformações que queremos para esse curso; algumas pessoas estão mais comprometidas, outras menos, algumas estão 100% nem aí! Então não vão ingressar nesse curso achando que será um ambiente suuuuper desconstruídão, viu?! Ainda não é, porque está nos trilhos da burocracia para existir, porque a teoria é uma coisa e o cotidiano é outro, porque ainda existe muito apego ao passado, e o osso… Ele não será largado assim tão fácil, porque todo mundo tem fome de alguma coisa! Há professoras que mantém a ordem e a norma e há professoras que as destroem, de maneiras diferentes – é óbvio-  mas é necessário reconhecer esforços sem romantizar a cena. Ainda é preciso muito chá de auto-crítica a ser distribuído pelos bebedouros, viu…!  Eu ainda indico essa graduação pra quem se interesse por esse campo de atuação, porque a bem da verdade, quem pode mudar as realidades somos nozes.

by Maria Izquierdo

 

 

F.A.Q Bacharelado em Gênero e Diversidade!

  1. É uma graduação? Sim, é uma graduação completa com habilitação em bacharelado;
  2. Quantos semestre tem o curso? mínimo de 6 semestres e máximo de 14, o recomendado são 8 semestres, equivalente a 4 anos;
  3. Como ingressar nesse curso? Você precisa fazer ENEM e participar da seleção via SISU;
  4. Qual nome da profissão?  até onde eu estou sabendo, a profissional que se gradua passa a ser “analista em gênero e diversidade”;
  5.  Como é o corpo docente?  Temos uma maioria de mulheres ministrando aulas, tem dois homens no quadro docente e um deles eu ainda não conheço; pelas minhas contas, são aproximadamente 15 docentes.  É óbvio que as pessoas tem currículo para estar ali porque concurso público, mas algumas pessoas como professoras são ótimas pesquisadoras… Acontece em todos os lugares, néan. No quesito racial, a predominância ainda é branca (guess what!?!);
  6. Qual a área de concentração? O curso é concentrado em Políticas Públicas, visando preencher essa lacuna de formação profissional, fazendo com que sejamos capazes de formular, acompanhar e monitorar ações e projetos com uma lente de gênero, tendo criticidade capaz de enovelar tecnicamente as questões de raça/etnia,  sexualidade/orientação sexual/identidade de gênero, idade/geração, sexo/gênero, etc. Então o lance todo é sair desse curso sabendo o que fazer e como fazer com todo arcabouço teórico e técnico que adquiriu podendo aplicar em diferentes formas de trabalho. Não te parece instigante e desafiador!? (rysos);
  7. Qual a área de trabalho/atuação? Minha gente, com esse curso -teoricamente- você poderá trabalhar em tudo quanto é canto, das agências internacionais (tipo ONU&cia) até roteiro de cinema, por exemplo, RH de banco. A analista em gênero e diversidade sai apta para atuar em diversos espaços, tanto públicos (como secretária de DH, promoção da igualdade racial ou da mulher, quando elas existem, hihi!) como espaços privados (empresas que começam a entender que o Mundo é bem maior e diverso do que sempre acharam, daí podemos atuar na consultoria direta pra elas não fazerem bosta, rss). Como é uma profissão nova, que tem nome, graduação e a porra toda, as pessoas geralmente vão se surpreender quando você disser que estuda ou é formada em Gênero  Diversidade, na maioria das vezes elas não vão entender o que isso significa. Aí você precisa ser bem criativa pra explicar de uma forma não pedante o que você faz.
  8. Onde procurar trabalho?  Basicamente, em tudo quanto é canto! As empresas privadas e os órgãos públicos não sabem mas precisam muito da gente, de pessoas capacitadas para lidar com a ~diversidade~, mas como o curso é novo e a ideia de se ter um curso assim nem passa pela cabeça, as pessoas sempre vão se surpreender até entender que precisam de profissionais assim, porque lidamos com questões transversais, múltiplas, que perpassam espaços diversos. Então é melhor a gente se jogar na pixxxta e botar a cara no sol, porque quem não é visto não é CONTRATADO! rysos. Além disso, você pode se tornar uma pesquisadora, uma acadêmica e viver disso, se tornar docente depois… É um outro caminho também! Isso tudo eu tiro de ouvir as palestras, professoras falando, algumas pessoas fazendo estágio, etc… porque emprego mesmo eu tenho é saudades! Não está fácil, gente.
  9. Existe estágio? Existe! Inclusive, recentemente a Defensoria Pública da Bahia abriu vagas (remuneradas) para a Equipe de Atendimento Multidisciplinar de População em Situação de Rua e  vaga para o NUDEM – Núcleo de Defesa da Mulher, só pra vocês terem ideia de onde podemos estar. Isso não significa que seja abundante as oportunidades, porque não são, mas existem uns milagres aí acontecendo. Espero que se multiplique porque a galera que já está nos semestres mais avançados diz que não tem sido fácil, mas a esperança é a última que morre e todo mundo precisa se formar e trabalhar!
  10. Como é o currículo (o que se estuda nesse curso)?!  O curso está passando por um processo de reformulação curricular minuciosa que visa melhorar o fluxo das disciplinas, mas basicamente a gente estuda nos primeiros semestres conceitos gerais de gênero, sexualidade, linguagem (alo análise crítica do discurso!), violência, poder, etc etc… Até começar o 4º semestre que é o momento de entrar em contato com Políticas Públicas. É claro que nisso tem umas optativas ótimas como a que eu peguei agora pro terceiro semestre “Gênero, ética e filosofia”; você pode conferir outras disciplinas acessando o currículo do bacharelado.
  11. O curso é parecido com Ciências Sociais?  Nãããão! Embora a gente estude nomes da CISO  no início do semestre,  eu não acho que sejam parecidos porque as propostas são diferentes… Há uma proximidade no campo de humanidades e sociologia e tal, mas Gênero e Diversidade tem uma curva de rio muito interessante que deixa a Ciências Sociais a ver navios!
  12. Trabalho final?  -> TCC, amores! <- PREPARA.
  13. Como é a inserção do curso dentro da UFBA: AMORES, ninguém sabe que esse curso existe! (rysos de nervoso). Tirando uma galera do Bacharelado de Humanidades e Artes que vive pegando disciplinas, eu arrisco dizer que 90% da UFBA não sabe que existe esse curso. Poucas pessoas sabem da existência desse curso, para tanto, isso reflete quando você vai fazer inscrição em algum evento da universidade e tem que assinalar “outros” no campo de cursos, porque não tem esse curso nas opções. Ah! Nas atividades “Ação Curricular em Comunidade e Sociedade” (ACCS), acontece a mesma coisa: Gênero e Diversidade vem descrita em atividades de humanas, como se não fosse um curso interdisciplinar. A comunidade acadêmica ainda não enxerga o BGED, mas o C.A de Gênero tem se articulado e promovido muitas atividades que levam o nome do curso, consequentemente, as discussões pertinentes a diferentes espaços. Então, CREIO EU que esse cenário tende a mudar aí pelos próximos 4 anos, pelo menos.

 

Se brotar mais dúvidas, deixa nos comentários, prometo responder! Mas por enquanto é só isso que tenho a compartilhar… Daqui 3 semestres eu volto a escrever sobre esse curso (ou não, talvez faça isso antes!). Por enquanto é só isso pessoal, beijos!

 


Imagem destacada by Teresa Irene Barrera, artista visual mexicana <3