Todo corpo tem uma história

Todo corpo tem uma história


Acabei de finalizar mais uma carta de interesse à uma vaga de trabalho. Desde que voltei para casa eu só penso em como conseguir arranjar um emprego e só pensar nisso acaba enlouquecendo, sabe… Hoje eu não consegui fazer nada do que gostaria, só fiquei deitada e sentindo meu corpo transpirar de calor. Faz muito calor por aqui e não tem praia. Estou longe de onde eu gostaria de estar. Na verdade, eu já não sei exatamente o que deveria fazer… Tenho uma sensação de erro fatal no dirigir da minha vida que às vezes se conflitua com tudo aquilo que eu já fiz de bom até hoje, mas que nada supera essa sensação de estar errada. Ao menos quando eu estava na graduação esse sentimento era menor… Claro, porque eu estava fazendo exatamente o que deveria fazer. Só que não é suficiente. Aparentemente, nada é suficiente para uma jovem como eu. Meu corpo tem história, todo corpo tem história. Acho necessário repetir pra não esvaziarmos o sentido dessa frase, porque jogamos fora as histórias: tudo que compõe nosso ser. Há quem não valorize isso e eu evito essas pessoas, porque meu corpo tem história e todo corpo tem história e eu respeito isso. Atualmente, minha história conta com um problema grave de saúde e, talvez, muitos outros problemas psicológicos que eu não quero encarar agora.

 

Tranquei a graduação na UFBA, voltei a morar com minha mãe no interior, continuo desempregada e sem nenhum freela pra fazer. As coisas já foram melhores, eu me lembro, mas atualmente está tudo uma bagunça. Parece o chão do meu quarto quando eu chegava da aula morrendo de cansaço e só ia espalhando as coisas… Depois catava, peça por peça. Dessa vez eu já recolhi todas e mesmo assim o fantasma da bagunça permanece. É olhar tudo no lugar e não me sentir ali, “no lugar”. É um incômodo profundo e incrédulo que diz “como você pôde chegar até aqui?”. Um desgosto que é alimentado pela concretude do ser gorda, do ser lésbica, do ser negra. É uma bagunça dolorida. Quanto tempo mais eu vou passar até me assentar? Eu não tenho talento, nem vocação, nem habilidade para abrir um grande negócio. Como continuar?! Tem dias que eu só penso em dar fim à isso tudo, e nem essa possibilidade eu cogito.

 

Mas todo corpo tem uma história. A minha está triste, cinzenta e chorona, sem forças pra lutar. Quem chegar perto e quiser dar um peteleco, eu caio. Desmorono. Com esse tamanho todo, eu me desfaço porque não tenho forças para defender. Meu corpo tava dando sinais há um tempo mas eu não quis ouvir, simplesmente continuei. Até que um dia não deu mais para evitar. Eu fico me xingando toda vez que não ouço meu corpo, minha intuição e acontece alguma coisa ruim. Eu sei que há muito poder aqui dentro, mas quando é que eu vou ouvir?

 

Todo corpo tem uma história.

 

Qual é a história do seu corpo hoje?

 

 

 


Imagem de destaque: by Sofia Coeli

1 comentário

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  1. suzana

    oi, jéssica, tudo bem? te acompanho há um tempo, não sei quanto, mas encontrei seu blog porque também sou gorda, também sou sapatão e ainda preciso entender minha negritude. vc não está só. este seu post me lembrou de mim, agora: voltei a morar com a minha mãe, depois de dois anos em outra cidade, tentando um relacionamento que terminou em agressões de ambas as partes. ou seja. quase 33, desempregada, e um sentimento de falência avassalador. a história do meu corpo hoje também está triste, encurvada, e eu tb me lembro de melhores tempos. é o que me move a contrariar as evidências e acreditar que uma hora há de passar. vc não está só nesse lugar escuro. um abraço.

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