Sobre fotografias, griôs sapatonas, juventude –  em meio a insônia #SapatonizeAgosto

Sobre fotografias, griôs sapatonas, juventude – em meio a insônia #SapatonizeAgosto


Não fico um dia sem reclamar da dificuldade que tenho em encontrar foto de negras lésbicas pela internet. Fotos bonitas, com alguma qualidade de imagem, que não estejam hipersexualizadas, enfim, fotos bonitas! Mas hoje em específico meu reclame vem com mais força e também com um “Q” de preocupação. Estamos no mês da visibilidade lésbica, dia 29 de Agosto é o dia que o movimento lésbico elegeu para comemorarmos nossas identidades, nossa resistência lesbiana e insubmissa.

 

by Zanele Muholi

by Zanele Muholi

Eu escrevo nesse blog há 4 anos já. De lá pra cá muita coisa mudou. Meu olhar a respeito de fotografias foi ficando mais aguçado e sensível, meu filtro foi ficando mais exigente porque eu também fui compreendendo que não é qualquer tipo de representatividade que importa, ou seja, não é qualquer imagem que eu vou me sentir representada, inspirada a ponto de replicar e legitimar como tal. Particularmente a questão das lésbicas negras me toca de uma forma que chega a doer, de verdade.  Pois vejam: estamos vivendo sob influências das redes sociais, muito mais do que a TV, as redes sociais tem sido propulsores de grandes realizações fora da tela, isso é significante e não dá pra ignorar. Embora também não tenhamos uma democracia ampla no acesso à informação e à internet, onde ainda há lugares distantes das grandes capitais que o wi-fi não pega e passa longe de ser prioridade. Outro ponto que precisamos reconhecer. Mas agora vou recortar para explanar só com a parte que tem acesso à informação, às redes sociais.

 

by Zanele Muholi

by Zanele Muholi

 

 

Foi bem por causa do espaço virtual que eu consegui ampliar minha rede de amizade e de percepção sobre o mundo: conheci lésbicas! Várias lésbicas! Isso foi realmente importante pra minha vida, foi fundamental me encontrar com outras iguais; por isso me preocupo tanto com a questão das imagens e a necessidade delas em contextos positivos. O racismo opera em larga escala, tudo foi contaminado e ninguém saiu ileso, portanto, a fotografia, o audiovisual, a mídia acredito serem o locus onde o racismo prolifera e é nesse ponto que eu quero chegar: Eu não acho imagens de mulheres negras que aparentam ser mais velhas, gente! Eu não acho imagens de mulheres negras gordas acima de 50 anos! Eu não acho lésbicas negras já senhoras, sorrindo, ao lado de sua companheira sentadas num campo verde com flores, por exemplo. Eu não acho foto de rostos colados, de beijos sendo dados, de mãos pretas entrelaçadas. Eu não acho. Não acho também as lésbicas negras retratadas exercendo qualquer função que seja; uma escritora assinando seus livros, ou uma pintora… Eu não as encontro em nenhum lugar e isso é assustador!

by Zanele Muholi

by Zanele Muholi

 

Se por um lado tenho presenciado um despontar mais inclinado da nossa visibilidade,  resultado sem dúvidas da luta de muitas lésbicas negras na militância há décadas  de uma juventude forte e aguerrida, que espalha e faz questão de mostrar sua amora nas redes sociais, por exemplo; não tenho notado uma mesma visibilidade das lésbicas mais velhas nesse sentido.  Isso me preocupa a medida que ter nossos corpos espalhados numa rede virtual, às vezes, é a única chance que uma lésbica tem de se compreender politicamente e encontrar caminhos pra se reconhcer. E não somente, mas é também a chance que temos de reconfigurar e calibrar a forma como nos enxergamos, redefinindo o que é beleza, portanto,  estabelecendo que nossas vidas importam! Importam TANTO que elas também precisam estar em vários lugares, exibindo uma pluralidade em seu existir de negra e lésbica, no rompante com  tantos discursos normativos e racistas do que é ser lésbica e que precisam ser apresentados e legitimados para se contrapor aos estereótipos de tal forma que não haverá mais argumentos para os fatosfotos.

Faces and Phases by Zanele Muholi

Faces and Phases by Zanele Muholi

 

Não é só de representatividade que eu falo, aliás, muito cuidado pra não gastar demais essa palavra e esvaziar seu significado. Quero dizer, hoje eu consigo me inspirar vendo casais de lésbicas em poses lindas, com roupas super legais e cabelos maravilhosos, eu realmente amo/sou! Também posso acompanhar fotos de pretas lésbicas que ahazam nos looks; ou quando estão fazendo algo, tipo divulgando algum trabalho ou produto. Ok, eu me aproximo daquela imagem exibida.  Mas quando penso em mim daqui uns anos, mais velha, já não consigo ter uma inspiração  tão instantânea que vem de conjuntos de imagens construídos e apresentados a mim como possibilidades de existência (porque fotografia pra mim também é isso).  Só explicando: Eu tenho sim algumas inspirações vivas, sapatonas pretas que pude conhecer na militância e pude ouvi-las tão intensamente que desejei aos céus ter toda aquela intonação na fala e toda gama de argumentos e de vivência, tamanha minha emoção, tamanho espelho que elas se tornaram! Mas e as outras que não estão na militância e dificilmente vão encontrar essas griôs pessoalmente pra sentir o que eu já senti? Ou pra pelo menos saber que negras lésbicas com mais de 50, existem e resistem e FAZEM SEXO!, como diz Helina Hemetério, da Rede de Mulheres Negras do Paraná. É importante saber dessas fanchas, pois se eu sei que elas chegaram até onde chegaram, eu também posso, todas nós podemos. Eu sei que repetimos sempre o  lema do “você pode tudo”, mas é tão significativo quando você olha pra alguém e esse lema simplesmente está incorporado ali naquele corpo, de uma preta sapatão!  Uma potência que bate e fica! Além de que, fotografias são registros duradouros de nossas trajetórias, seja num âmbito político ou mais pessoal. Significa o fortalecimento de auto-estima contra hegemônica num mar de brancura e magreza excessiva, tornar pública uma foto como essas que aqui ilustram o texto é o ato de estabelecer um outro olhar sobre nossas vivências, reconhecendo potencialidades em diversas formas de ser;  é destituir de poder quem ousou falar sobre nós, estabelecer quem somos e como somos, é escrever sobre nós mesmas com novas ferramentas e tecnologias, é trazer do passado e apresentar para o futuro que somos muitas em diferentes belezas que se configuram e encaixam num mosaico que também chamamos de rebuceteio – essa rede de afetividade lesbiana e solidariedade exercida em diversas formas. Descolonizar nossas mentes e registrar a nós mesmas para estabelecer nossas belezas como humanas e admiráveis também: o pretume da pele em evidência, o crespo sem cacho já querendo acinzentar, a pele abrigando cicatrizes de resistência e marcas do tempo que incide sobre todas nós, as roupas que passam a não ser mais tão “da moda” assim, os acessórios ou a ausência deles, o estilo de cada peça de roupa que significa absolutamente a certeza e imponência de ser preta& sapatão. Outra beleza vai se construindo (eu percebo) e ela não pode ser omitida de nossas vistas, ao contrário, precisa ser enaltecida.

 

 

 

Num Mundo que ainda pratica estupros corretivos (não podemos esquecer) contra nós, onde homens ainda acham que lésbicas só estão numa “fase” ou que “falta conhecer o homem perfeito”, ter fotos de lésbicas negras griôs  é crucial pra que não percamos de vista nossa resistência ancestral, de onde viemos e pra onde podemos ir. Num Mundo que o racismo ditou que o normal é ter a pele branca para se ter alguma beleza, além de exigir uma jovialidade ímpar, determinando ao envelhecimento cargas ruins, pejorativas, indignas, passível de correção à todo custo, isso vai se refletir no que temos à nossa disposição e no que elaboramos para ter a nossa disposição também:
Ou seja: temos hoje uma visibilidade negra lésbica na web, temos, mas ela também é seletiva e precisamos nos atentar:  lésbicas negras, jovens, magras, com determinadas roupas e estilos (tipo tomboy swag), de casal ou sozinhas, nuas ou não, beijando e abraçando,  no parque ou nas ruas de alguma cidade, no estúdio ou ao ar livre, de baixo pra cima, de cima pra baixo. Isso é fantástico! Mas não basta, precisamos lançar foco e registrar muito mais de nós mesmas, transcender o que está posto, assim como se propõe fazer minha ídola Zanele Muholi, que com suas lentes vai registrar toda beleza e poder que existe na comunidade lésbica sul-africana ao longo de mais de 10 anos de trabalho, e vai expor ao Mundo em grandes galerias internacionais, o afeto lesbiano, corpos gordos, retrato de lésbicas em pluralidade perfeccionista decolonial… Além de deixar um recado explícito de que a comunidade LGBTQI e especialmente as lésbicas negras, fazem parte da construção do pós apartheid na África do Sul e que nem tudo são flores, que precisam avançar muito ainda no reconhecimento, respeito e proteção das lésbicas que ainda são constantemente vítimas de estupros corretivos por lá. Rostos e vozes registrados e ampliados, das redes sociais para centros de exposição. Procurem conhecer sobre o trabalho de Zanele, eu sou uma fã incondicional do que ela faz e não conheço ninguém que chegou próximo de fazer o mesmo, embora fosse muito bom ter alguém com os traços profissionais de Muholi porque a proposta fotográfica dela é revolucionaria, precisamos absorver muito dela!

 

Zanele Muholi - Thulani I, Paris, 2014 Gelatin silver print 19 1/2 × 16 in 49.5 × 40.6 cm Edition of 8

Zanele Muholi – Thulani I, Paris, 2014
Gelatin silver print
19 1/2 × 16 in
49.5 × 40.6 cm
Edition of 8

Tudo isso me suscita questionamentos… sem fim!

– Se representatividade importa, porque ela  ainda tem seguido um padrão?!
– Nós pensamos no debate geracional a partir da política falada, debatida, exercida tecnicamente. Mas e a política que o próprio corpo exerce per sé não conta?! Fica pra segundo plano?!
– Se a forma como entendemos uma pessoa  como bonita e atraente é construída socialmente, isso também não perpassa pela questão da idade e os elementos que estão embutidos nisso?!
– Porque algumas senhoras lesbianas preferem não mencionar que são lésbicas mesmo quando todo mundo sabe que são?! (e aí temos condições de não falar sobre corporiedade e “performance”?)
– Será que quando a gente fica mais velha, a necessidade de se colocar como sapatão diminui?
-E a vida pública e privada são realmente dissociadas no que diz respeito a afetividade, relacionamento, porquê?!
– Ainda é motivo de vergonha ou de ~zuera~ quando duas lésbicas com diferença de idade grande (sendo maiores de idade ok)  estão juntas -do beijo ao casamento, estão juntas, o babado é certo! Mas porquê?!
– Porque não temos o empenho em registrar lésbicas negras para além de uma juventude?
– Mas peraí…!  Vocês, griôs pretas&lésbicas, querem ser registradas?
– Como vocês se vêem nesse momento tão digitalizado e imagético? Se sentem parte também da visibilidade que está emergindo?
– Conforme vamos ficando mais velhas, existe uma tendência em se tornar mais “discretas”? Ou a forma como exibimos nosso amor simplesmente muda? Ou nada disso? Tudo depende?! rss…
– A gente, ~as novinha~ pensa em como vai ser depois dos 50? Estamos construindo que tipo de ideia desse período da vida? Ou nem estamos construindo nada?!!
– A presente falta de negras&lésbicas mais velhas na mídia representa uma sombra do armário a se aproximar?!
– A maturidade pode significar uma tranquilidade em relação à auto-estima?
– Porque não falamos disso com mais frequência?!
– A gente vai deixar tudo guardado só na internet ?!
– Quando vamos ter um filme que possa ser sobre nós com um final feliz ou pelo menos interessante, que faça sentido?! Ou melhor, quando vamos ter um The Real L Word só nosso?! Ou não queremos isso ?!

by Zanele Muholi

by Zanele Muholi

Ok, eu paro por aqui na intenção de não confundir mais pois meus questionamentos já estão demasiados profundos e não tenho dado conta de traduzi-los ao português, de forma que só esses já bastam pra uma noite de insônia, né!? (risos)

 

#SapatonizeAgosto

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