Porque eu posto foto de mulheres peladas

Porque eu posto foto de mulheres peladas


Já recebi algumas críticas sobre o conteúdo das fotos postadas aqui no blog. Para uns, eram fotos com nudez muito explícita e isso era errado. Para outros, eram fotos “feias” (para não escrever o que eu li de verdade). Mas para mim, as imagens são de absoluta importância pelo fato de NÃO termos nenhuma representatividade gorda. 

Ou existe, nos canais aberto, uma preocupação em mostrar corpos fora do padrão e fazer com que as mulheres se amem mais e deixem de buscar ferramentas para modificar seus corpos a todo custo ? Então, eu nunca vi.

Eu cresci assistindo desenhos que se quer representavam a minha cor -negra-. Cresci vendo personagens sempre brancas, magras, altas, de cabelo liso. Quando tinha uma personagem gorda ou com alguma característica que fugia do padrão, era sempre motivo de chacota. 

Eu não pude ser paquita da Xuxa porque não era branca, magra do cabelo liso. O mais perto que eu chegava daquela mulher idolatrada, era adquirindo umas botinhas com o seu nome emborrachado. 

A questão é que só se reproduz uma forma de ser, absoluta e hegemônica, e todo mundo compra como real.  E ainda tem quem venha falar pra mim que isso não importa, ou que é bobagem da minha cabeça. 

Pois eu acredito muito, que teria passado BONS momentos se não fosse a forte influência da tv na minha vida, aliás, do conteúdo por ela reproduzido constantemente. 




O que falar da representatividade lésbica? Oh, o que é isso, né? Se quer conseguem vincular uma notícia com a palavra LÉSBICA numa matéria sobre LÉSBICAS, imagine só publicar fotos. 
Não, realmente é uma problemática forte tendo de ser enfrentada. 

Por isso que eu acredito no poder da imagem. Ela é capaz de te fazer repensar coisas ou de te certificar de outras. A imagem tem a capacidade de reflexão interna, muito íntima, que pouco é dita -por conta do individual. 

Mas aqui, agora, neste espaço, eu quero mostrar todas as imagens que estiverem ao meu alcance. 
Elas me ajudaram muitíssimo a destruir certas inseguranças-gordofóbicas dentro de mim. Me fizeram entender que o meu “gostar” era algo totalmente construído e, na real, não foi bem construído. Foi moldado para acatar uma definição da qual eu se quer tinha ideia se realmente gostava, mas me sentia obrigada a gostar, porque ONDE JÁ SE VIU ACHAR LINDA UMA GORDA, né/?

Porque ninguém nasce gostando de mulher magra. Ou só de mulher ruiva.

As imagens me fizeram questionar o porquê do meu olhar ser tão condicionado para as mulheres pertencentes ao padrão.
Me fez questionar o porquê do meu olhar direcionar para as mulheres fora do padrão, mas minha consciência não aceitar aquela mensagem..
Me fez enxergar a minha própria imagem refletida em outra mulher. E acima de tudo, me fez entender o quão bonita era aquela imagem quando eu estava despida de pré-conceitos. 



Por essas e outras que eu não vou deixar de postar fotos das gordas, fotos das gordas lésbicas, fotos das pretas, das trans*.
Por essas e outras é que eu faço questão de ter mais imagens do que texto por aqui. Porque nós precisamos nos sentir representadas. Nós precisamos saber da existência uma das outras e entender que o corpo alheio não é errado, não é sujo, não é pecaminoso ou digno de pena ou modificação. 
Precisamos ter imagens de outras mulheres que se sentem plenamente bem com seus corpos a ponto de publicarem uma foto na internet para quem tiver acesso. 




Porque o corpo não é errado. A nudez não é maldita e o sexo não é nosso inimigo. 

Desembaçar a visão que temos dos outros corpos. Criar uma percepção de admiração do que de repúdio. Enquanto permanecermos em estado de ojeriza disfarçada, continuaremos a perpetuar opressões, mesmo sem ter noção disso.

Hoje, depois de toda essa desintoxicação, os variados corpos me encantam absolutamente. Digo isso com total certeza. 
Me encanta também, que há pessoas tomando ciência disso e simplesmente se relacionando umas com as outras porque se sentem bem, porque tem afinidades, porque dão risadas juntas. Esquecendo o peso, o tamanho do quadril, o tamanho do braço ou da coxa.  Se o rosto tem óculos ou um dente aberto -tipo Madonna-.

Portanto: sinto muito àqueles que se incomodam com as fotos aqui publicadas. A administradora que vos fala é a favor da liberdade dos corpos, a real, não a hipócrita. Esta gorda e sapatão que por aqui escreve, quer causar outros tipos de sensações e reflexões com os conteúdos postados, estes mesmos que você não encontra na Marie Claire OU uma TPM da vida.

                                     Agora, olhe as fotos e reflita.

 

PS: Depois de meses, eu apareci. É que tudo tá bem corrido por aqui. Aulas começaram, trabalhos, encontros, pessoas interessantes. Eu bem que gostaria de ter tempo pra escrever tudo que eu já bolei aqui na minha cabeça, mas não dá. E eu nem lembro de anotar se quer uma palavra-chave. Então já viu…. Mas é isso. Sempre que der eu apareço. Esse cantinho nunca ficará totalmente abandonado. <3 beijas!

3 Comentários

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  1. Géssica Castro

    Esse post tem mais de dois anos. Poderia ter sido escrito ontem mas teria o mesmo efeito: Uma sensação de que o meu rosto está sendo virado suavemente para uma direção que eu geralmente não olhava. Se olhava, não via de fato. Talvez pelo incentivo de reparar somente naquilo que corresponde a um padrão. De quaquer forma, essas imagens são lindas e vc tem toda a razão quando diz que é uma forma de representatividade. Essas pessoas e esses corpos são comuns, são reais e são lindos e eles devem ser mostrados.

  2. Fernanda Magalhães

    Eu sou branca, magra, cis e lésbica. Só depois de aceitar minha orientação sexual, eu comecei a ler e conhecer melhor sobre o ativismo LGBT e feminismo. Isso foi essencial para que eu desconstruísse muitos preconceitos que nunca havia percebido antes. No caso da gordofobia, como nunca sofri com isso eu jamais teria notado como a mídia é gordofóbica, pq somos ensinados que é questão de “gosto”, de “saúde” e não de preconceito… Acho seu trabalho importantíssimo, representatividade importa sim e muito! E esse padrão de beleza imposto pela sociedade precisa ser quebrado e desconstruído. Todos os corpos são lindos sim e as mulheres precisam ver, ouvir e aprender umas com as outras que são lindas e atraentes. Não vamos parar até que todxs sejamos livres e empoderadas! ♀

  3. Pâmela

    Maravilhoso texto. Propõe uma reflexão – infelizmente tardia, pq deveríamos ter feito isso já há algumas décadas – que até nós, mulheres gordas e lésbicas, fazemos raramente. Ao ler o texto, me perguntei se já postei uma foto minha, ao menos de biquíni… nunca!
    Por que não??? Meu corpo não é sagrado???
    Pois agora lateja em minha cabeça: – Reflita, Pâmela! Liberte-se!
    Valeu pelo texto. Você é phoda de boa, rsrs!

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