Nós precisamos falar mais sobre o racismo

Nós precisamos falar mais sobre o racismo


Há quase 3 anos eu cortei o cabelo cheio de química. Há quase 3 anos deixo meu cabelo natural. Desde então, a descoberta da minha negritude vem crescendo junto com os fios na minha cabeça, só que com a diferença:  Quando eu decido por raspar a cabeça de novo, minha consciência racial não é podada junto porque ela se estabeleceu tão forte e tão urgente que uma vez fincada suas raízes, jamais deixarei corta-las. Não existe um retrocesso do meu reconhecer negra. O meu cabelo vai e volta porque eu faço exatamente aquilo que eu desejo (coisa muito rara ainda mais se tratando de estética e autoestima) e pronto, tá tudo bem raspar o cabelo… Vai crescer de novo e vai crescer lindo! Eu sei que vou amar, aliás, estou amando pois parei de cortar o cabelo e ele tá grandão, cacheado meio-irregular-meio redondinho, sabe? É uma coisa linda que só (amo meu cabelo, gente).

No entanto, deixar meu cabelo crescer e usá-lo sem vergonha ou medo, tem me custado mais episódios de racismo do que eu podia imaginar.

Quando eu ergo meu black e ele fica gigante, chamo atenção por onde passo. Poucas são as pessoas não me olham. Poucas são as pessoas que reconhecem a beleza do meu crespo. Poucas. Ele chama muita atenção pela cor: roxo. Sim, um black enorme e roxo passeando pela rua, sou euzinha! O ruim é que já tive que ouvir que meu cabelo “precisa ter menos volume, mas a cor tá linda”. Ou então que “precisa dar um jeito nesse cabelão, hein”. São frases ditas displicentemente, com a maior naturalidade.

 

http://hermannmejia.blogspot.com.br/

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O racismo foi mais percebido por mim por 2 motivos, principalmente:

– Minha consciência racial: quando eu tinha 15 anos eu achava normal querer alisar o cabelo porque era mais lindo do que o meu, crespo. Eu até já cheguei a ficar empolgada com a ideia de afinar o nariz, porque me convenceram de meu nariz largo era feio. Ouvia sem espanto algo como “Sai desse sol senão você vai ficar preta!, e outras coisas mais que o racismo faz com que seja naturalizado para sempre contribuir com a exclusão de pessoas negras, com determinados fenótipos e características. Isso é horrível, olho pra passado e identifico tantos episódios ruins, racistas, maldosos que tenho vontade de vomitar (de verdade).

O cabelo: Não tem como diminuir ou tratar a questão do cabelo como algo menor ou superficial, de pouco aprofundamento, sabe Cabelo é referência, ou “sabe aquela mina do cabelo curtinho?” e pras pessoas negras assumir seus cabelos naturais é um ato político de enfrentamento ao racismo, uma vez que nem isso nós podemos se depender da supremacia branca. Os tipos de tranças, os penteados, os dreads, os adornos… Todos esses símbolos fazem parte de uma cultura subalternizada desde nossos antepassados e, quando conveniente, ela é endeusada (vide esse texto no Blogueiras Negras) mas NÃO quando é a preta que se apropriado daquilo que já é dela e de seus ancestrais. Logo, falar de cabelo é tratar do racismo tal qual tratamos quando debatemos o genocídio da juventude negra. É sobre racismo que debatemos. O cabelo  é também uma expressão da nossa estética construída, mas quando falamos do cabelo crespo/cacheado/volumoso, não podemos deixar de falar do racismo que vem pesado por trás de atitudes como “alisar o cabelo dá menos trabalho”, coisa que eu já falei um tempo atrás e que hoje consigo perceber o quão racista e naturalizado esse tipo de fala é.

Por isso que eu quis citar esses casos acima, para chegar num ponto delicado: Precisamos falar mais sobre racismo. Sem achar que ele se manifesta de forma isolada e de uma maneira uniformizada porque isso tá longe de acontecer, uma vez que somos pessoas negras diversas, porque ser negro é diverso. Não é uma caixinha fechada onde tem os 4 passos em cada vértice. Bato nessa tecla porque ainda somos recorrentes nesse erro de achar que mulher negra é tudo igual, de achar que homem negro é tudo igual. Acho essa curva muito perigosa uma vez que a gente acaba incorporando um discurso burguês draconiano de que “somos todos iguais”.  Nós não somos. Nossa negritude não é pautada naquilo que as pessoas brancas conhecem sobre pessoas negras e nossas culturas; um exemplo disso é justamente o traço mais afinado do nariz de uma pessoa negra. Veja, o povo negro sequestrado e escravizado, vindos das várias partes do continente africano, também eram diversos em suas culturas e seus traços, logo, nunca fomos uma massa homogênea com traços absolutamente iguais. Etnias, tribos, povos com mil dialetos e línguas  jamais reconhecidos pelos escravistas de plantão e que resultaram no potente imaginário racista do que é ou não considerado negro ou afrodescendentes. E então, por conta disso, não consideram a possibilidade do nariz ser mais fino nas pessoas negras e não  ligarem diretamente à traços europeus brancos (porque só essa galera podia ter esses traços na face da fucking Terra, né?!). Ou e seja, as pessoas brancas concordam quando há racismo contra uma pessoa negra da pele retinta, consideram que há racismo com uma pessoa negra e de cabelo crespo, consideram que há racismo contra uma pessoa negra com nariz largo. Mas não consideram que há racismo contra uma pessoa negra de tom mais claro com cabelo cacheado e daí a sugestão de um corte “melhor” ou um “relaxamento” não são vistas como racismo, porque nos enxergam como uma série de bonecos moldados de forma exata. E isso não existe, nunca existiu. Somos resultado vivo de uma mistura de povos negros mas igualmente diversos, que na condição obrigatória de escravizados, povoaram essas terras saqueadas pelos portugueses, e derem continuidade aos seus costumes e culturas da forma que conseguiam… Nesse emaranhado desconhecido e violento processo de escravidão, o povo negro foi posto em mutilação diária de sua vida e suas origens, não sabendo mais quem era da onde quem não era. O que foi justamente uma estratégia perversa dos brancos em sequestrar várias porções diferentes de etnias para que não pudessem conversar entre si (nesse ponto lembraram que o continente africano era povoado de milhares de dialetos diferentes) para articular fuga. O quão perverso isso foi não é passível de mensurar.

Brooding Woman by Paul Gauguin

Brooding Woman by Paul Gauguin

 

Não posso deixar de mencionar a miscigenação que é mais uma faceta cruel do racismo. Sob o prisma romantizado e até mesmo ultravalorizado em alguns momentos, a miscigenação é fruto de uma política de embranquecimento do Brasil que, ao manter as pessoas negras escravizadas e desumanizadas, não quiseram também que esse mesmo povo – quando da liberdade-  fosse parte majoritária dando o tom desse país. E aí os imigrantes europeus e asiáticos  foram utilizados como uma espécie de ferramenta do apagamento negro. É fato que o contexto do início da imigração no Brasil propiciou a utilização dessa máscara que escondia a oportunidade de embranquecer o Brasil (Sim, o contexto histórico político abriu essas vias por conta da expansão da economia, o fim do tráfico internacional de escravos e as grandes plantações de café em São Paulo). Mas essa foi uma artimanha especialíssima para fazer com que a ideia da democracia racial fosse realmente implantada a partir dessa época e, a partir daí, seria usada como argumento empírico se valendo da máxima
“No Brasil não existe negros e negras, somos um povo miscigenado” . Vale destacar um trecho do texto da Jarid Arraes, para o Blogueiras negras acerca desta questão:

“(…) Para os brasileiros, é melhor ser branco sempre que for possível. Se a pele não é escura o suficiente, ou se um dos pais é loiro de olhos azuis, então a pessoa é considerada branca, em uma tentativa incansável de clarear os descendentes, a família e a nação. Da mistura de raças, nasce o branco por consideração e, com isso, morrem a cultura, a religião e a identidade afrodescendente. A negritude e a cultura africana, com seus símbolos e tradições, se tornam cada vez mais algo do passado, de uma ancestralidade que é, na maioria esmagadora das vezes, totalmente desconhecida (…)”
A face racista da miscigenação brasileira

 

 

Há brancos e há negros. A sociedade sabe muito bem quando eu sou negra e vai usar do racismo pra tentar me parar. Assim como quando um senhor branco caucasiano me chamou de “marromzinha” de dentro do seu carro bem polido enquanto eu atravessava a rua. Ou então quando eu caminhava para casa e um fulano comentou com outro que “essa neguinha é metida” porque me rebelei diante do assédio verbal que destilaram contra mim.  E é aí que eu aperto o calo do assunto porque essa ideia do ser negro precisa ser ampliada e acolhida suas diversidades. Ignorar que elas existam dentro da própria comunidade negra é tocar o barco com um monte de gente pendura na borda se afogando. É andar um passo e voltar dois, porque sempre vai ficar algo pra trás e se a gente não se atentar pra isso, a jornada antirracista vai ficando enfraquecida e fragmentada sem laços de atenção e solidariedade. Daí a gente não consegue nem destruir uma ideia hegemônica do ser negro que, eu acredito muito que foi moldada pela supremacia branca escravista, e nem acabaremos com o racismo. Nem um e nem o outro dá pra continuar porque o genocídio da população negra e afrodescendente é crescente e perceptível de longe (basta querer ver, néan). E não é só dar cabo da vida das pessoas que considero como genocídio: Também é genocida a omissão do Estado frente o pensar políticas públicas de enfrentamento ao racismo; também é genocida a irresponsabilidade de aplicar uma práxis antirracista dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo; também é genocida a burocratização e não efetivação de penalidades das denúncias formais de crime de racismo; também é genocida a isenção de uma reflexão abolicionista penal, tendo em vista que o sistema penitenciário aglutina um grande número de negros e negras e que nem cogita rever esses passos violentos de pura exterminação dos pretos; também é genocida o não cumprimento da Lei 10.639/10 nas escolas públicas; também é genocida os olhares atentos quando uma pessoa negra adentra uma loja.

 

 

Lykke Steenbach Josephsen 2012 African Woman

Lykke Steenbach Josephsen 2012 African Woman

 

Agora preciso citar Audre Lorde para me ajudar nessas provocações:

Como mulheres, nós fomos ensinadas a ou ignorar nossas diferenças, ou vê-las como causas de separação e suspeita em vez de forças para serem mudadas. Sem comunidade não há libertação, apenas o armistício mais vulnerável e temporário entre um indivíduo e sua opressão. Mas comunidade não deve significar uma queda de nossas diferenças, nem a pretensão patética de que essas diferenças não existem.

As ferramentas do mestre nunca irão desmantelar a casa do mestre

 

Destaco esse trecho pra lembrar às companheiras feministas, principalmente, que o ser negra e o ser lésbica não se dissociam. São intrínsecos e incapaz de serem pensados separadamente. Infelizmente falamos pouco sobre o racismo e suas formas de atuação e perpetuação e esse silêncio não vai nos ajudar a combate-lo. Em mesas de debate, muitas vezes repete-se o erro de falar de uma mulher sem citar especificidades de raça e/ou classe, colaborando para a manutenção do ser mulher universal. A menos que tenha uma mulher negra fazendo essa fala ou, a menos que seja o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, essa cena se repete constantemente e agimos como se nada fosse problemático.
Companheiras, as mulheres negras estão na base de toda exclusão que possa existir. O racismo é o cimento que solidifica o capitalismo patriarcal que tanto lutamos contra diariamente. Mas a maioria de nós, luta diariamente contra o racismo? Quantas de nós problematizamos nossas relações dentro de casa ou no trabalho? Quantas de nós identificamos racismo no nosso próprio discurso que, embora seja de boa fé, ainda não está livre da reprodução racista. Quantas de nós assumimos que o racismo existe e que também podemos ser vetores em potencial dele? Porque é preciso se despir da ideia de que estamos livres de difundir o racismo porque estamos na linha de frente da militância. Não se enganem, companheiras, o racismo é traiçoeiro e foi muito bem orquestrado de maneira a parecer inexistente quando nos aproximamos de algum movimento social.
Fechar os olhos para isso é fingir que luta sem lutar. Problematizar posicionamentos racistas é um dever de vocês também, porque deixar na conta das preta não é o caminho. Considerar que se posicionou de forma racista quando só uma mulher negra te aponta, só quer dizer que você não deu conta de rever seu privilégio ainda e que precisa se afundar na luta antirracista e incorpora-la cada vez mais.
Já ouvi a questão racial ser menosprezada em debates, já ouvi que racismo é complexo e que “precisamos debater com calma” – mas nunca debater.

E eu pergunto até quando isso vai ser adiado e empurrado com a barriga? O que eu aponto não é novidade. Mulheres negras que vieram muito antes de mim já fizeram esses apontamentos ao mesmo movimento feminista que hoje eu alerto por meio deste texto. Poderia até fazer uma linha do tempo com as críticas ao movimento feminista feitas por mulheres negras militantes, mas fica pra outro momento, até porque ainda acredito que vamos conseguir unidade no combate ao racismo no movimento feminista.

 

mulherio-numero-21

Jornal Mulherio de 1985, onde Sueli Carneiro já apontava a necessidade do debate racial.

Reconhecer que o movimento feminista vem falhando há tempos com a questão das mulheres negras é um passo que precisa ser dado, precisa ser reconhecido para que seja então, superado e de sua consequência, gerar ações de embates antirracista dentro e fora dos debates, dos seminários, das datas de luta. Porque quando conversamos e damos voz a essa questão num determinado espaço político, todas ficamos atentas e participativas… Mas muitas vezes essa ação só fica restrita a esse momento. Então, identifico que há um problema grave na nossa militância uma vez que as reflexões não são postas em práticas no nosso cotidiano.
Infelizmente já passei por situações racistas vindo de companheiras feministas e que não acharam legal eu fazer esse apontamento. E justamente porque debatemos de forma ainda tão superficial e em pequenas porções, que as companheiras criam essa resistência em enxergar o racismo sendo reproduzido por ela. Sim, o racismo é deveras cruel, nada menos que isso. Mas a quebra do silêncio é o demarcador do passo. Falar da mulher negra em primeiro lugar não é esquecer das demais mulheres.
Falar da mulher negra em primeiro lugar é evidenciar a resiliência de um povo que é prova viva do maior crime de todos os tempos.

 

PS: Esse texto não é capaz de abarcar todos os questionamentos e reflexões dialéticas acerca da negritude e do racismo, mas se propõe aliado para explorarmos a questão racial dentro do movimento feminista, alertando e desmistificando o mito da democracia racial e suas variantes. Pois é preciso nos munir do conhecimento antirracista para que nossa luta reflita em ações futuras de embates raciais com mais afinco e destreza por parte de todas nós. Por isso, faço esse texto como forma de contribuição para o debate.
No mais: estou aberta ao diálogo, à críticas, à debates… Enfim. É mais um texto feito com amor. <3

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