Não quero princesa da Disney: nem gorda nem magra!

Não quero princesa da Disney: nem gorda nem magra!


Acho que já teve um mês que eu vi certas ilustrações correndo por vários grupos no FB, onde eu frequento. Muitas postagens sobre as princesas das Disney sendo retratadas numa forma gorda, voluptuosa, “transgressora”. 
Pessoas bradando a(s) autora(s) por ter ousado e desenhado esses ícones infantis de uma forma totalmente inesperada… Ohhhhh!

Eis que lá vou eu abrir o link para olhar mais perto as imagens…. E o que vejo?
 
Vejo ilustrações das princesas clássicas. Gordas. Comendo. Comendo seus bichinhos de estimação. C O M E N D O! Observe nas fotos a expressão de prazer que é colocada em cada princesa. Eu não sei detalhar o quão de mal gosto isso é, mas…
Percebam: 
 
 
 
As imagens acima são da ilustradora Anna Panna. Infelizmente, a autora desenhou opressão.Desenhou violência. Desenhou qualquer coisa, menos as princesas da Disney. Porque até onde eu me lembro, nenhuma princesa magra comia seus bichos. Mas a gorda come, né? E porque? Porque ela é gorda, ué. 
Foi essa a mensagem que eu recebi quando olhei essas figuras.
A intenção da autora ficou muito clara pra mim quando ela coloca todas as personagens desse mundo tosco da Disney, comendo alguma coisa. E o pior foi entender que eram bichinhos… Isso, os animaizinhos que são aliados das princesas, muitas vezes. Elas comem. Só as gordas comem eles.
Eu não achei isso artístico. Mas muita gente vai dizer que foi sim, deveras muitíssimo artístico, algo fora de qualquer conceito quadrado… E que revolução! Alguém desenhou essas princesas fora do padrão! U-A-U!
Pois é, vai ver meu senso crítico sobre a arte anda muito falho, muito anti-opressor e realmente, não vai conseguir ver nada de belo e revolucionário nessas imagens. 
 
Caso queira, você pode ver mais dessas figuras clicando aqui.
 
Como desgraça pouca é bobagem, ainda teve a artista plástica Aly Bellissimo, norte americana, que desenhou sua versão gorda das princesas.
Reparem bem na expressão desenhada na face destas princesas. Reparem nos olhos e na posição dos braços e mãos de cada uma. 
 
 
 
Fiquei um tempo refletindo cada expressão, cada figura, cada traço nesse espaço desenhado. Misturei toda essa informação  junto à minha vivência, à minha leitura sobre o tema… Tentei traçar uma linha racional que condizia com a realidade em que estamos inseridas. Cheguei em algumas conclusões:
 
1º- Observando, percebe-se que todas as princesas gordas carregam em si um olhar cabisbaixo, distante… Uma postura acuada e até de incomodo, de incompetência.
2º- Pensando, cheguei na ideia de que a autora poderia ter desenhado assim para quebrar esse “encanto” que rege a face das princesas magras, criando a ilusão de que sempre está tudo muito bem e tudo muito lindo
 
3º- O  2º não cabe na realidade porque as princesas magras nunca foram retratadas com as mesmas expressões que as princesas gordas foram ali.
As gordas, ali, não têm essa bagagem de que “tá tudo bem tudo lindo sorriso eterno” para se contrapor a essas faces tristes e sem vida na qual foram retratadas. 
 
4º Logo, nitidamente, mostra que tristeza retratada nelas é advinda da forma gorda em que estão agora. Traz uma mensagem muito clara de insatisfação e eu não consigo deixar de entender que foi por estarem gordas.
Eu não consigo vislumbrar outro motivo, ou acreditar em outra suposição porque eu sinto na pele todos os dias o que é viver numa sociedade gordofóbica. E ninguém precisa dizer pra mim o que é isso. Eu sei muito bem e não, não é legal ser alvo de olhares e xingamentos por causa do meu corpo. Por isso não dá pra entender de outra forma, que não essa.
Ela retratou justamente o que a mídia sempre nos falou:

Você gorda = Você triste

Você magra = Você feliz
 
Eu não aceito esse tipo de representação ilustrativa, que deveria ter sido pensada muito mais criticamente sobre seus efeitos (devido a carga ‘cultural’ que elas tem), no entanto não foi. A autora declarou em uma entrevista que faz porque é divertido, que desenhar gordas da menos trabalho e estes desenhos passam longe de ser um manifesto contra a magreza. 
 
E aí querem realmente que eu pense o contrário, né galera. Difícil. Não dá não. 
 
Acredito muito que é necessário uma responsabilidade da autora ou autor sobre a sua obra publicada, seja ela vídeo música foto ilustração texto banner…. Cada conteúdo desse gera uma mensagem, e essa mensagem vai chegar de diferentes formas para cada receptor. Se você prepara sua obra sem a menor reflexão política em cima dela, pode se considerar mais um fomento para as diversas opressões existentes por aí. 
 
Imagine uma menina, de 7 anos, vendo em desenho animado essas princesas gordas… Vendo elas comerem os bichinhos. E no bloco seguinte, ela assiste às princesas magras, sofrendo no começo mas tendo todo apoio dos animais… Se tornando forte para enfrentar as coisas, e logo, tendo a sua recompensa: o príncipe (ou algo que o valha). 
 
Eu não gosto dos desenhos da disney. Assistia quando criança, mas hoje eu vejo a carga horrível que cada um deles tem, principalmente as princesas! Que viram capas de cadernos, mochilas de escola, estão no lápis, na parede do quarto, na decoração do ármario e no aniversário de 10 anos. Esse aglomerado de opressão que elas significam -na minha mente-, com muito brilho, cabelos louros e olhos azuis, heterossexualidade compulsória, monogâmia compulsória, controle do corpo e da sexualidade da menina, submissão, a tal da “pureza”, o culto ao homem branco, o casamento, a herança de uma riqueza que só chega com o homem e etc etc etc…
Por isso que eu peço: Quer representar as mulheres gordas nos espaços onde elas não são representadas? Ok, mas não faça isso deturpando ainda mais a imagem da mulher gorda. Não precisa! Já estamos lotadas de mensagens ruins… Vai gerar mais uma pra quê? (não, não precisa responder no comentário, ok). 
Todo mundo pode ser uma célula revolucionária. Todo mundo consegue muito bem produzir outro tipo de conteúdo e não ficar só copiando o que já foi feito e dando só uns retoquezinhos… Todo mundo consegue, todo ser deste miserável mundo é capaz de algo que não a opressão. Basta entender quando eu digo que essas imagens são SIM opressoras e violentas. Basta ouvir aquelas pessoas que não tem os mesmos privilégios que o seu e que sabem da opressão que sentem todos os dias, logo, sabem apontar pra você numa banca de revista, quando aquela imagem é racista, quando é homofóbica, quando é gordofóbica, quando é a reunião das opressões!
 
 

1 comentário

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  1. Lúcia

    Adorei. Uma excelente reflexão sobre essa época cheia de paradigmas em que vivemos e que muitas vezes estão tão intrínsecos que nem reparmos – e acolhemos nossos os pensamentos que a mídia e a sociedade nos impõe – Parabéns pelo seu lindo blog!!!! 🙂

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