Nada a perder

Nada a perder


Tenho pensado muito nos últimos dias que a crueldade mais cruel contra pessoas gordas não seja os xingamentos, nem os espaços que não cabemos, nem as roupas impossíveis, nem os olhares de nojo enquanto comemos. Tudo isso é péssimo, mas leva a uma onda ainda mais funda, ainda mais visceral e cruel, que afeta as estruturas de auto imagem, de existência, de ser. Viver um corpo eternamente negado.

É uma experiência avassaladora, e revisitando infância, traumas, lembranças, penso em todas as vezes em que quis fazer qualquer esporte, exercício, movimentar o meu corpo, muitas pessoas a fim de me “incentivar”, passavam a falar de dietas e da importância de emagrecer, como se esse fosse o único motivo válido para que eu fizesse qualquer esforço físico. Não a coluna reta, não os músculos pulsando, não ser mais feliz. Emagrecer. “Me cuidar”. E todas as coisas que eu poderia fazer quando emagrecer! Usar biquíni, raspar a cabeça, pegar roupas emprestadas das amigas, ter todo o corpo tocado, IR À PRAIA! E, enquanto a redenção da magreza não chegava, bora ficar em casa, sozinha, negando o corpo e comendo, comendo muito, comendo compulsivamente pra saciar a enorme ansiedade de ser GORDA.

“Você é gorda demais para…” bom, porque eu seria gorda demais pra isso? E se meus braços sustentarem meu corpo, qual o problema de eu fazer barra, capoeira, yoga, salto com vara? Em idos 2011, eu comecei a fazer ballet. Meu corpo não era muito diferente do que é hoje e no começo, tinha vontade de chorar. Todas aquelas meninas magérrimas e eu. Mas primeira aula é primeira aula e pra minha surpresa, eu alcançava movimentos que várias muito magras meninas não alcançavam. Isso me surpreendeu de maneiras que jamais poderei expressar. Como EU podia fazer movimentos que uma pessoa magra não podia, que ideia absurda!

Gorda Baleia: nada a perder

Hoje consigo entender como isso é uma hierarquia que passa despercebida no existir de todo dia: pessoas magras são melhores que pessoas gordas. Melhores, mais hábeis, mais tudo. Sabendo disso, que disposição eu tive pra viver esse corpo, pior em tudo? Pior ao toque, pior aos olhos, pior nas corridas, na dança, no sexo? Somos tratadas como escória, motivo de riso. A gorda é obrigada a encarnar tudo que não é bom: culpa, desleixo, vergonha, medo. O pavor de ser vista exatamente como é. Como seria possível ficar em paz consigo desejando viver no mundo como outra pessoa? O quanto dói precisar me preparar diariamente para sair de casa e ser ofendida apenas por existir no meu corpo?

Só quando aprendi o exercício diário me olhar no espelho e me ver linda, amar cada dobra, não precisar da aprovação hegemônica para me saber maravilhosa. Grandessíssimo exercício tirar a roupa com pessoas, sentar e deixar que a minha barriga se dobre como mais me é confortável, correr sem medo, porque meu corpo é tipo jambu, treme-treme-treme-treme-treme, gostoso demais. E cada dia agarro um novo prazer negado: toco meu corpo, durmo de conchinha, danço, uso mini saia, mini short, mini blusa. Alongo, esfrego, dobro, experimento sentir o que esperava ser magra para fazer, e descubro que não preciso de magreza nenhuma para ser inteira, minha própria liberdade. Tenho uns quatro espelhos no quarto, ando sendo a minha namoradinha mais apaixonada.

***As imagens utilizadas nesse post são de Nothing to lose, controverso espetáculo de dança idealizado por Kelli Jean Drinkwater, ativista gorda e corpo positivo. Protagonizado por corpos dançantes gordos, é uma experiência inédita que incita a repensar o corpo na dança, criar um espaço em que a audiência de fato possa apreciar as formas gordas e possibilita pela potência artística romper preconceitos enraízados que nos impede de apreciar outras belezas. A diretora, magra, Kate Champion aponta o questionamento o que há de proibitivo em corpos gordos se apresentarem em palcos? como inspiração para o projeto. Também admite a incapacidade do seu corpo atingir os movimentos próprios de corpos gordos.

Um corpo gordo que dança é um ato de insubordinação.