Eu odeio catraca de ônibus!

Eu odeio catraca de ônibus!


Eu odeio catraca de ônibus. Toda vez que eu tenho que tomar ônibus é um desespero! Nunca sei se vai dar certo passar pelo outro lado, na hora que subo os degraus eu sinto um nervoso como quem escala paredões sem corda (nunca fiz isso mas imagino). Acho que a sensação real é adrenalina mesmo, porque às vezes chego a ficar eufórica, o coração pulsa mais forte por alguns instantes… Não sei descrever, só tenha a mesma sensação todos os dias.  E quando não dá tempo de rodar aquele ferro contorcido antes da descida fatídica?! E se tratando de Salvador, olha… Muita ladeira abaixo (e acima!). Tentar rodar a catraca com uma força contrária é pedir pra entalar! Não gira. O corpo é pesado, da pra empurrar, mas não  caibo ali. É preciso ajeitar, encaixar, murchar a barriga pra garantir o deslize perfeito! Ufa! Parece que transcendi por um portal! Perfurei uma barreira! Cheguei até o outro lado! CONSEGUI! Como prêmio de consolação recebo olhares, estranhos olhares que eu nunca consigo decifrar exatamente o que significam. Eu gostaria que não olhassem, que não fosse algo interessante de ver “a gorda passando na roleta”. Quero acreditar que não é todo mundo me olhando assim nesse sentido. Quando eu entro num ônibus, forjo uma brincadeira de pensar que todos estão me olhando porque eu sou linda demais e eles nunca viram uma mulher tão linda assim antes, por isso estão espantados e admirados.

by Sergio Velásquez, "Gorditas Nicas"

by Sergio Velásquez, “Gorditas Nicas”

Esse pensamento só é necessário por que antes de tudo, eu subo aqueles degraus odiando ter que passar por aquele troço de novo! Porque raios não fazem essa catraca um pouco mais larguinha!? Porque é que ainda tem catracas !? Ok, eu sei porque isso existe, sim sim… Mas eu odeio! Se me perguntarem o que eu odeio nessa vida, eu vou dizer sem precisar pensar: CATRACAS!  O pior disso é que agora eu dei pra me medir a partir dessa joça! Valha-me Deusas, a que ponto cheguei! Acontece que eu pude até me entender com as balanças, mas as catracas… Elas são as piores coisas, no plural mesmo! Balança você pode até evitar, adiar o uso dela. Mas como evitar uma catraca quando você é pobre (também não tem bicicleta), não tem nem condições de sonhar com um carro quiçá ter um, quando você precisa ir e vir da aula ou do trabalho, sempre longe porque morar perto de tudo também custa dinheiro, muito dinheiro!? ¿Como¿ Não dá pra evitar. Não dá pra evitar a raiva do que a catraca significa em vários aspectos sociais e subjetivos, porque essa bosta é usada como ferramenta de aprisionamento, de algo que é controlado, marcado, espaço delimitado que libera de acordo com seu tipo de passe. E muitas vezes o seu passe é o seu corpo, sua cor. Eu odeio tanto isso!

by Francisco Zuniga  'Caserio norteño'

by Francisco Zuniga ‘Caserio norteño’

 

Ultimamente eu tenho odiado mais! O tempo não amenizou, só fez aumentar. Também tem influência do contexto que estou vivendo: GOLPE! Estamos vivendo um GOLPE mesmo, e eu não imaginei viver isso, que estarrecedor e odioso também! A PM matando ainda mais os jovens negros em comemoração aos Jogos Olímpicos, a Globo com uns discursos #somosTodosiguais ainda que com seus diferentes se sobressaindo, mas ainda assim mantendo-se racista, golpista, cultuadora de estupros, misógina, odiosa aos LGBTs… Enfim, tudo que desde sempre foi. Não acredito nesse lixo de emissora! Achei interessante e odiei. Não consegui escrever nada, odiei em silêncio. O energúmeno decrépito governador do Estado de São Paulo&CIA festejam do alto de suas coberturas luxuosas, a desgraça que plantaram no terreno urbano. Odeio! São também catracas! Tudo areia do mesmo saco: os homens brancos cisgêneros, a violência, as catracas…! ODEIO. Odeio em silêncio, e me dói o corpo e a alma. Ultimamente eu tenho feito muito isso, não sei o que há de errado. O ódio me engoliu? Ou eu estou me odiando por dentro? É tudo culpa dessa maldita catraca! Desses malditos homens cisgeneros brancos que juram honestidade e inocência enquanto saqueiam, roubam, matam, em nome de Deus e da família. Onde já se viu toda essa desonestidade alastrada de forma a fazer aglomerado de gente clamando por um ditador militar!? Que ódio! Porque a seletividade é como uma catraca: controla quem entra e quem sai no final das contas e principalmente no início delas. Quem tem, tem. Quem tem, passa. A lógica é a mesma. A materialização é a catraca, que eu tanto odeio. Essa sociedade é uma enorme catraca controlada por nojentos fardados traidores de uma confiança que nunca tiveram de nós. Usurpadores, assassinos, manipuladores. Vidas negras importam, porra! Morreu mais um dentro da Universidade. Preto que não chega até lá, morre de fora mesmo, é o que mais acontece! Odiosa natureza humana que faz questão de educar crianças para reproduzir e sofre violência. Odeio essa catraca!

by Francisco Zuniga 'Madre Juchiteca'

by Francisco Zuniga ‘Madre Juchiteca’

 

Não é ódio de mim mesma, mas também não é amor o que eu sinto atualmente. Assisti ao filme Bessie  ontem e me identifiquei, foi uma terrível constatação, mas não posso contar… Vou soltar um spoiler e simplesmente me escancarar. Eu não quero. Não agora, só quando eu quiser mesmo. Engraçado que fazer realmente o que se quer precisa ter uma boa dose de coragem, né!?  Não em assumir as coisas em para si, porque isso tem de ser feito… Mas não sentir-se culpada depois.  Aquele pontinho de culpa que aparece num negócio ou outro ainda é culpa, Jéssica! Não se importar. Talvez se eu conseguisse deixar de odiar a catraca eu deixaria de me importar com as pessoas olhando e consequentemente, não odiaria mais esse ritual necessário,  e assim eu viveria em paz na hora de tomar um ônibus!? Se alguma gorda conseguiu, me conta qual é a sensação por favor! Não dá. A catraca que eu odeio não é só essa que está no ônibus, antes fosse. Sorte de quem só tem uma catraca pra odiar, que bom pra você! Porque hoje eu vou ter de passar por ela de novo, e caminhar pela rua, e resistir sobrevivendo, e insistir, e amar, procurar uma alegria que seja, qualquer coisa que justifique minha existência ainda. Isso soa muito dramático e pessimista, carência também deve ser.
by Francisco Zuniga  'Caserio norteño'

by Francisco Zuniga ‘Caserio norteño’

Eu nunca fui magra. Não sei o que é ser magra. Nunca tive a ilusão de que um dia seria, nunca quis ser. Eu só deveria ser, aos olhos dos outros, eu deveria ser muita coisa! Nunca quis. Nunca tentei. E isso não significa que fiquei blindada de nada. Meu corpo, que sorte em tê-lo! Eu gosto, muito! Mas não estamos na melhor fase… Aquele lance de auto-sabotagem é real. E é quase imperceptível. Mas nesses momentos de insônia (são 04:08 da manhã e eu adoraria dormir mas não consigo!), num relâmpago de consciência, eu tenho que escrever os fatos. Reconhecer: não estamos bem! Eu e o corpo, o corpo e eu. Separados assim como escrevo. Preciso juntar. Fundir em mim mesma, que loucura!  Encaixar no meu eixo central, canalizar esse ódio pra alguma coisa que faça barulho e não retroceder! Retomar bons hábitos esquecidos, ler bons livros, cumprir as promessas soltas, estipular horários e cumpri-los; retomar tarefas abandonadas; me organizar! ME ORGANIZAR. Literal e a mente. Literalmente, em tudo que puder. Já apontava Chico Science os caminhos sonoros de protestos que eu me organizando posso desorganizar, que eu desorganizando posso me organizar. 
by Francisco Zuniga

by Francisco Zuniga

Adoro escrever essas coisas porque eu frequentemente me esqueço, me afundo noutras cosas toscas aí,  mas tendo isso pra esfregar na minha própria cara posteriormente fica mais interessante. A prova do crime de quem se auto-boicota, escreve que não quer mais fazer isso, vai lá e continua fazendo. E ainda tem coragem de expor à apreciação de terceiros… Ai ai ai… Malditas catracas!!!! A minha cara preta nem treme. A não ser de ódio pelas catracas. Só mais um cigarro antes de dormir (pausa). Me sinto hipócrita, será que a crise dos 30 resolve? Vai demorar, antes disso eu tenho tanta coisa pra fazer. Eu podia começar relaxando, né… Um pouco, qualquer coisa seria melhor que isso! Cadê minha válvula de escape? Qualquer coisa que me faça sair dessa areia movediça do ódio às catracas! Quando é que tudo melhora? Eu não estou me divertindo mais, ficou chato. Eu não consigo ainda curtir as coisas. Que fase, jovem… Eu queria voltar a ser combatente como antes. Eu quero, melhor dizer! Minha vida e a militância são uma só? Onde é a linha que distingue uma da outra eu sendo esse combo de opressão ambulante? Eu sou só isso? Eu sou isso tudo!? Que fase mesmo, hein! Essas questões existências exigem de mim muita sensibilidade, muita atenção, muito cuidado ao pensá-las, e eu sou desastrada, desatenciosa e imprudente. Desafio posto à mesa, honey! Interessante notar o quanto o meio interfere.  Eu aqui longe de casa, onde me criei militante, me sinto gente mas não militante (esquisito isso). Não consigo explicar, tem coisas fora do lugar ainda… Aliás, eu nem tenho onde guardá-las! Assim fica difícil também. É um saco essa ânsia pela urgência das coisas, isso me mata!
Mas ainda vou aprender a lidar melhor e evitar esse suicídio à prestação. Quanto mais eu me retraio, tento minimizar, tento acreditar que o melhor é deixar quieto, pior fica. Mas o pior mesmo é conseguir reagir. Uma amiga me disse esses dias que eu sou uma borboleta, tenho a chance de sair do casulo e bater as asas, retomar minha história com outros contornos. Em suma: viver plenamente! Agradeço a poética do safanão, Rê! <3 Não esqueço. Mas é hora. De dormir. De começar as aulas. De fazer algo acontecer! De não selecionar tanto a hora de ficar em silêncio, o filtro vai ficando mais rígido e você nem percebe… Mas as catracas… Essas eu vou odiar pra sempre, ou enquanto essa máquina for feita pra moer gente preta, pobre, LGBT.

*Imagem destacada: Francisco Zuniga, artista costa riquenho