Esse texto é sobre a sua repulsa à pelos

Esse texto é sobre a sua repulsa à pelos


Antes que os higienistas de plantão se manifestem sobre essa publicação, começo logo do básico. Quem sabe assim, evito a fadiga de ler comentários esdrúxulos por aqui. (se você não se considera um higienista de plantão, logo, esse parágrafo não foi para você, relax)



José Cruz-Herrera (Spanish, 1890-1972), “Étude de nu féminin”

PELOS! Partezinhas do corpo do humano. Estão fincados na nossa pele. Estão por toda parte, sejam mais grossos ou mais finos; mais claros ou mais escuros. Estão presentes. A existência dos pêlos tem um motivo, isso é óbvio, mas eu acho que uma galera esqueceu ou deduziu de pouca utilidade e os descartou. 

 
Os pelos nascem em regiões estratégicas do seu corpo, como forma de proteção àquela região. Os pelos detectam corpos estranhos antes que os mesmos possam adentrar algum orifício do teu corpo.
Nossos pelinhos nasceram e cresceram nos seus devidos lugares de onde nunca precisariam sair. 
 
 
Só pra deixar claro que: Nossa sociedade não é feita de exceções. Eu quero dizer que vou abordar nesse post a influência social como mecanismo obrigatório de alteração dos corpos. E não, não existe nenhum diploma que valide a minha vivência enquanto cidadã-mulher-cis-preta-lésbica-gorda-peluda. Por favor, se atenham à carga que é jogada em cima de nós todos os dias. Os comerciais de creme depilatório, a nova lâmina de barbear, o desodorante que só mostra mulheres de axilas lisas e BRANCAS (mesmo a modelo sendo negra, a axila é mais clara, sempre) e a necessidade de embranquecimento desta região, mulheres trans com suas identidades sendo negadas por conta de algo natural, o asco que foi criado sobre a falsa ideia de que depilação é questão de higiene, , etc etc etc.
E sinceramente, se isso não faz parte da sua realidade, tudo bem. Tudo muito bem! Acontece que existe uma obrigatoriedade gritante que rege a vida das
mulheres em sociedade. Se você não sente empatia pela causa, tudo muito bem também, no problens. Mas por gentileza, favor não destorcer as palavras aqui descritas como forma de reforço à sua transfobia&misoginia ou afins. 
E muito engana-se você pensando que eu faço esse texto em crítica às mulheres e homens que depilam seus corpos. Passo bem longe disso. Eu acredito muito na autonomia das pessoas sob seus corpos e não me cabe o julgamento do que deve ou não ser feito no que diz respeito ao corpo que não é o meu. 
A minha abordagem se dará ao fato de considerarem -socialmente- nojentas as mulheres que decidem por manter seus pelos. Sejam eles só nas axilas, só nas pernas, só no púbis ou em todas as partes. 
 
Se somos sujeitos de direitos de nossos corpos e fazemos então, o que o nosso “gosto” direciona: porque pessoas que mantém seus pelos ao natural são tão julgadas?  Porque você só considera os pelos uma característica ‘masculina’ se está presente em todos e todas?
 
Entendem? O problema central, aqui e agora, não é “NINGUÉM DEVE DEPILAR” mais. Mas sim “PORQUE MEU PELO TE INCOMODA?”
 
(obg denada, um PS enorme no meio do texto porque sou dessas, nem ligo)
 
 
Infelizmente, eu não encontrei fontes confiáveis para que pudesse aprofundar nesse assunto. Me parece que os pelos não são nada interessantes para estudar num viés social. Talvez eu tenha procurado pelas palavras-chaves erradas, ou então, não tenha procurado direito…. Mas não achei em nenhum lugar (além de uns sites estranhos que previam esse acontecimento, sem fonte ou algo que o valha), artigos ou teses, qualquer coisa escrita que tenha sido devidamente pesquisada sobre a depilação aderiu ao corpo das mulheres. 
Em alguns cantos, eu li que no início do século 20 a remoção dos pelos passava despercebida pelas norte-americanas pois usavam roupas que cobriam todo o corpo, logo, mantinham o pelo (isso não me convenceu ainda). 
 
Daí, nos anos 20, se instalou uma nova moda com vestuários que permitiam os braços de fora e tal… E aí as mulheres decretaram que para usar uma roupa mais elegante, que mostrasse mais o corpo, deveriam tirar os pelos.
 
 Pois é, essa aqui é a pesquisa feita (em ingles, infelizmente) onde eu achei esses dados curiosos. E pelo que eu entendi, conforme os anos passavam e as modas se reinventavam, as roupas ficavam mais curtas para as mulheres,e a obrigação de se manter depilada aumentava. 
 
Mas a minha tese é outra, é mais política e que um dia eu terei teoria suficiente pra abordar da maneira que eu gostaria, mas não hoje. 
 
Enfim…
 
 
Teses à parte, quero contar algumas coisinhas pra vocês: 
 
 
1 – Ter pelos é algo natural. Acontece com todo mundo a menos que você tenha alguma doença que iniba o crescimento dos seus pelos. 
 
2 – Ter pelos no suvaco, na bunda, no cu, na região do pubis, veja só, TAMBÉM É NORMAL! uow! 
O que eu acredito que aconteça, é a variação da quantidade e espessura, de resto… Geral tem (exceto.. cê sabe).

3 – Se você ficar 3 dias sem tomar banho, mas continuar com sua rotina normal (trabalhar, estudar, almoçar com a chefe, namorar, etc etc), PASME: VOCÊ FICARÁ FEDENDO! Isso mesmo! Vai ficar com um cheiro nada agradável e isso é indiferente da quantidade de pelos que você tem no corpo. 
 
4 – Se você sente incômodo com seus pelinhos e acha por bem tira-los, tudo bem. Mas qual a necessidade de você presumir que o corpo da outra pessoa é o errado por manter na naturalidade os pelos?

5 – Eu tenho as axilas peludas. As pessoas no metrô me olham como se eu fosse um extraterrestre. Ninguém nunca cheirou meu suvaco pra saber se estava fedendo ou se deixava de estar. Eu não passo 3 dias sem tomar banho. E também uso desodorantes – já que te importa tanto – diariamente (porque o odor natural também causa asco e não pode existir, mas isso é outro post!).

 

https://www.facebook.com/fckshaving
 
 
6 – Depois que eu parei de depilar, tanto nas pernas quanto no suvaco, minhas alergias sumiram. Não tenho mais pelinho encravado nem nada. 
 
7 – Meu odor continua o mesmo. Nenhum cheiro se potencializou por eu manter meus pelos. Continua a mesma coisa. 
 
8 – Os pelos não vão chegar até o seu pé se você deixa-los crescer, dei a dica! 
 
9 – É a parte visual que te incomoda? Porque não te incomoda o suvaco cabelo de um homem ? Porque isso se os pelos são inerentes a todos nós? 
Porque nele é bonito e aceitável e em mim é feito e repulsivo? Hmmm…. momento de reflexão! 
10 – Ter pelos não faz de mim “menos feminina”. Não me torna “mais masculina” (esse não é um fator tão relevante porque eu sou cisgênera, mas torna absurdamente mais relevante se você for uma mulher trans, mas eu só consigo falar com propriedade a partir daquilo que me identifico); manter meus pelos não faz com que a minha tal “delicadeza de mulher” (que não existe, mas vou citar porque sei que isso é base para algumas pessoas)  deixe de existir. 
 
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Manter meus pelos não me torna nada. Eu continuo sendo quem eu sou. Porque os pelinhos que você repudia por toda opressão cultural que incutiram na sua mente mas que você vai dizer que é só questão de gosto mesmo: são naturais!
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O meu único intuito ao escrever isso, é fazer com que seja gerado uma reflexão consciente sobre a repulsa criada contra as pessoas que querem e podem manter seus pelos. O meu intuito é trazer à tona uma questão que causa horas de debate entre meninas e mulheres, onde elas buscam acalmar uma inquietação diante das suas vontades – de manter seus pelos- e limitações – a sociedade escrotiza quem o faça. Conversamos e discutimos para tentar criar mecanismos de aceitabilidade com a nossa naturalidade humana que anda cada vez mais plastificada, mais personalizada, mais robótica-futurística e menos: humana.

A descaracterização dos corpos bate de frente com várias esferas que circundam a vida das mulheres (sejam trans* ou cis). 

Ao passo que eu aqui, reivindico ser lida sem violência por querer manter meus pelos, outras mulheres não sentem o mesmo, pois correrão o risco de não ser lidas da mesma maneira que eu, e assim, terão suas identidades violadas, negadas; e o fazem como método de sobrevivência –ou não– social. O que eu compreendo totalmente. 
Por isso esse texto se trata da obrigação social a qual estamos todas fadadas a sermos alvo. 
Com pelos ou sem pelos, continuamos mulheres. O ideal seria que não nos impusessem nada: nem a ausência de pelos, nem a permanência deles. Mas que um e outro, respectivamente, fossem tratados da mesma maneira. Sem estranheza, sem ojeriza, sem risos. 
Mas como passamos longe disso, então eu escrevo.
Escrevo como um contra-ataque a toda essa obrigatoriedade corporal na qual querem -a todo custo- nos submeter. 
 
 
 
derrama tuas lágrimas, higienista misógino, vaaaaaaai hihihih euzinha, bjaum!
Prevejo faces contorcidas naquela típica expressão “nojinho”, rysos

2 Comentários

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  1. Alice

    Ótimo texto!
    Eu me depilo porque prefiro meu corpo dessa maneira, mas acho um absurdo a galera que discrimina os povo prefere manter os pelos. Como você disse, cada um tem seu corpo e cada um faz o que quiser com ele. Mas graças as coisas que a mídia impõe, quem opta por não se depilar, acaba sendo rotulado “anormal”, “nojento” entre outras coisas. As pessoas precisam ter a mente mais aberta e aceitar o jeito dos outros, não é só porque faz uma coisa (no caso, se depilar) que todo mundo tem que fazer o mesmo.

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