Bonita de rosto


Desde criança tive que aprender a lidar com comentários ofensivos sobre meu corpo, e olhe que nem falo sobre os provindos de pessoas da minha idade, meu maior problema sempre foi com a instituição “os adultos”; as crianças, ah, a gente se resolvia entre a gente mesmo, mas tinham eles, sempre. Perdi a conta das vezes que em meio à reuniões familiares fui chamada (minimamente) de gorda mas não de maneira descritiva, o tom usado era sempre ofensivo, por pessoas que tinham o triplo da minha idade, pessoas consideradas socialmente maduras que faziam comédia às minhas custas. Eu, uma garota de dez anos com a auto-estima que mais parecia o jogo “campo minado”, parecia que eu iria explodir a qualquer momento.

Como na vez em que depois de uma sequência maravilhosa de brincadeiras entre primos nas férias de julho, fomos chamados para lanchar, minha tia havia preparado torradas de pães adormecidos que sobraram do café da manhã e suco de goiaba; éramos sete crianças comendo torrada com suco de goiaba numa mesa, mais um dia de férias normal, as risadas e o barulho ecoavam pelo recinto, uma memória feliz não fosse pela cena que se sucedeu após enchermos nossos copos: uma prima bem mais velha que acabara de chegar em casa, ao nos ver naquela mesa comentou em alto e bom som: Beatriz vai sair rolando, comam logo, que não vai sobrar para ninguém. Ela usava um tom cômico, mas por trás daquele ar descontraído que expressava,  pude e sentir a agressividade de suas palavras.  Sorri sem graça.  Desde aquela época você já era considerada “exagerada” caso não levasse uma ofensa “na boa”. Eu tinha oito anos, acabara de sentar à mesa, segurava uma torrada recém-mordida, estava faminta, mas larguei a comida, e me levantei da mesa na primeira oportunidade que tive.

E essa não foi a primeira vez que coisas do tipo aconteceram, tampouco a última, foram inúmeras as idas às praias, piscinas, casas de parentes, minha própria casa, que terminaram e/ou se desenrolaram em comentários sobre meu peso. E, bem… vendo fotos antigas, não consigo enxergar o monstro comedor que era pintado sempre que surgia a chance. Aos poucos fui abandonando as idas a esses lugares, fazendo birra para ficar em casa e quando era obrigada a comparecer, tentava me camuflar o máximo possível: as roupas largas, blusas de manga em dias quentes, eu tentava ficar à sombra, desviava de todos, tentava não manter contato visual, para assim não acabar sendo o centro das atenções. Tentativas em vão, sempre acabava em mim, fosse depois do “nossa, como você tá em forma” destinado a uma prima que estava numa dieta Detox ou fosse no exato momento em que eu colocava macarrão no prato do almoço, o assunto se incendiava.

 

1965:

by Franciso Zuninga, 1965

 

Ninguém queria saber que eu tinha ficado em 2º lugar no meu primeiro concurso de poesia da escola, ou que agora eu já sabia ler em outro idioma; era mais legal falar que eu era até uma menina bonita, que meu rosto era lindo, mas que precisava emagrecer, que não sabiam onde eu ia parar, que eu não ia arranjar um namorado. Até hoje, aos vinte e dois anos, me sinto nervosa em comparecer a eventos familiares, passo a ocasião inteira, bem como sua véspera, pensando: “quando e de quem será o primeiro comentário?”. Crises de ansiedade constantes, a voz que sempre parecia de choro, tudo era escondido atrás de um sorriso gigantesco, eu pensava: se eu for simpática eles vão pegar leve, vão ver que eu sou mais que meu peso, eles perceber! Não viam, e por muito tempo eu fui só dor e vergonha, odiava tudo em mim, evitava espelhos, quando era obrigada a me encarar, procurava não demorar muito, “tá tudo tão errado” – eu pensava.

Eu queria ser magra, ter cabelo liso e nariz fino. Eu queria ser como a minha mãe era na época de solteira, mas o que eu tinha? Bunda grande, pernas grossa, muito peito, “eu não cabia nas roupas da moda”, a moda não foi feita para pessoas como eu, e eu achava que seria sempre assim, que nunca ia ser alguém que merecesse qualquer coisa, além do resto que me jogassem de atenção.

É o tipo de coisa que marca a gente negativamente para vida inteira, chegando um momento, pelo menos pra mim, que eu quase acreditei em todas aquelas coisas; felizmente tenho aprendido diariamente a me impor e a não mais me sentir inferiorizada por comentários como esses, mas até hoje não é fácil e nunca vai ser, o empoderamento do vizinho é sempre mais verde, o caminho para o local “mulher gorda empoderada” parece a catraca do ônibus que eu tenho que passar todo dia e morro de medo de ficar presa! E a galera não fala isso pra gente, não falam que mesmo as pessoas ditas empoderadas e orgulhosas passam por momentos ruins, a gente vai saindo do modelo-padrão-social-branco-magro-cis-hetero e quer se socar no gorda-feliz-sexualmente-realizada-que-nunca-se-sente-mal.

 

 

Jenny Saville and Glen Luchford - Closed Contact:

by Jenny Saville and Glen Luchford – Closed Contact

 

 

Recentemente voltei a frequentar os eventos familiares, a ideia de perder momentos com os meus avós me fez sentir mais medo do que de enfrentar todos os comentários gordofóbicos que eu já tinha ouvido dos meus familiares. O nascimento de um primo, ao qual eu me apeguei muito, mudou tudo, pensei: “agora eu não tenho mais dez anos, vou fazer a Inês Brasil, “se me atacá, vou atacá”, e assim voltei ao ambiente familiar nocivamente controlado, voltei diferente da menina de dez anos, voltei gorda orgulhosa com o black pra cima.

Estava tudo bem, eu participava das rodas de conversa, os comentários não vinham e eu realmente me sentia diferente. O aniversário de um ano do meu priminho estava chegando e eu estava tão feliz com aquilo que só conseguia pensar em como seria maravilhoso estar lá com ele e viver todos os momentos que ele não iria lembrar no futuro. Chegou o grande dia, fui a primeira a ficar pronta, EM VINTE E DOIS ANOS era a primeira vez que eu ia para uma reunião de família sem pensar em me armar psicologicamente, em vinte e dois anos era a primeira vez que eu não pensava antes de encontrar meus familiares: “vai ficar tudo bem, relaxa, se alguém disser isso, você responde aquilo”.

Seguimos para o aniversário, fiz foto e postei no instagram. Tudo corria bem, o Anthony estava animado com os seus convidados e lotava o buffet com o seu sorriso. Eu me sentia bem e conversava com todos, até que uma tia de outra cidade me chamou no meio da festa, achei que queria papear um pouco, faziam meses que não nos víamos. Ela segurava o seu celular e nele havia uma foto minha sentada. Ela me chamou no meio do povo para mostrar o quão gorda eu era, o quão ridícula eu estava naquela foto que havia tirado, o quão ridícula eu era por achar que estava bonita e que provavelmente aquela foto viraria a piada do grupo de família do Whatsapp. Me senti um lixo. Eu, mulher gorda com todo o meu empoderamento comecei a chorar ali, bem no meio da festa. Eu, mulher gorda empoderada chorava feito à menina de dez anos do passado. Esses dias li um texto do site Kiss the fat Girl que dizia que o empoderamento não vai te livrar das dores e que por mais que você seja empoderada, as coisas vão te machucar do mesmo jeito. A diferença é que você pode até cair mas vai se levantar rápido. E assim foi. O caos emocional que a minha tia havia causado se dissipou tão rápido quanto começou. Respirei fundo, percebi que não cabia a ela ter qualquer posicionamento ao meu respeito, e daí? Quem era ela? Porque eu precisava do respaldo de alguém que sequer sabia quem EU era? E eu disse isso, fiz questão de dizer que a sua opinião pouco significava para mim, que eu ia bem e que não seria ela a estragar o que eu tinha construído com tanto trabalho, fiz por mim aos vinte e dois, fiz por mim aos dez.

O feminismo me ensinou algo maravilhoso, é melhor causar num evento familiar ou em qualquer outro lugar, ser conhecida como “respondona”, “chata”, do que ficar se sentindo um lixo por conta de gente com pensamentos opressores.

Eu cresci gorda numa família não-gorda, esse poderia ter sido o meu maior problema, mas isso é o de menos, como me disse uma amiga certa vez “no mundo dos gordos, as coisas foram feitas para os magros”; é fácil notar isso quando num shopping de cinquenta lojas de roupas, eu sou atendida em três, e dessas três, eu tenho que me contentar com meia arara; quando o programa “de humor” coloca como castigo para um participante beijar a garota gorda, ou quando o carinha magro do canal no Youtube  faz textão no Facebook dizendo quando é ok ser gordo e quando não.

 

Music Lady with Balalaika:

unknown author

Hoje, ao me olhar no espelho, ver o meu corpo, sentir o meu sexo, ter domínio de mim mesma e ver que as opiniões dos outros são apenas dos outros, sinto-me livre, e ainda que constantemente acabe por tropeçar entre os pedregulhos da auto-aceitação e do amor próprio, vejo que o clichê universal de que a revolução começa na gente, é nada mais, nada menos, que extremamente verdadeiro.

 

 

Por Beatriz Fernandes


Imagem destacada: Rufino Tamayo – dos mujeres en la ventana, 1925, México.