A discussão é sobre nicho de mercado no carnaval – não tem nada a ver com autoestima

A discussão é sobre nicho de mercado no carnaval – não tem nada a ver com autoestima


De tantas coisas que já aconteceram neste início de ano que reverberaram na internet, nada me impeliu tanto como essa “nova” proposta de “movimento Corpo Positivo” que uma marca de cerveja  lançou na internet hoje, prometendo um carnaval de “celebração de todos os tipos de corpos“.

Não é de hoje que a marca vem tentando se mostrar “amiga” das reivindicações histórias de diferentes segmentos da sociedade civil organizada, evidentemente porque movimento social não sossega e não por boa vontade da marca. Depois de passarem ANOS produzindo comercial com imagem de mulher associada à  consumo, tal qual fossem troféus para quem comprasse a cerveja, atualmente esse pessoal percebeu que lucraria muito mais prestando atenção e reproduzindo o pautam os movimentos sociais,  estudando uma forma com que transformariam isso em publicidade “de respeito” como simulacro de arrependimento. Todos esses anos produzindo peças que construíram o imaginário social acerca do corpo das mulheres brasileiras, estabelecendo como único aceitável aquele que estampava o poster do bar (que invariavelmente era moldado por muita dieta, academia e photoshop, desnudo) como o desejável e aceito, hoje vem à público dizer que quer celebrar todos os tipos de corpos. Ou seja: uma marca importante para o processo de auto-ódio de milhares de mulheres brasileiras agora espera reverter mais de 20 anos de violência simbólica com um artista pintando corpo das pessoas na rua, divulgando fotos de pessoas “fora do padrão” como capa de notícia na internet. Isso é sério?! Mas que GRANDE IDEIA! Uaaw! Vocês se acham gênios, não é mesmo?!! Eu tenho certeza que sim… Eu poderia apostar com vocês algum trocado se eu tivesse, que todas as pessoas de marketing e publicidade ficaram suuuuper felizes com essa “nova” campanha para o carnaval, e que estão fazendo “história” em puxar um coro desses, afinal, vocês fizeram uma pesquisa Ibope antes pra saber o que as pessoas pensam, só esqueceram de se colocar como parte do todo.

‘I Am Not A Fertility Goddess’ ~ Pencils on paper ~ 7×10.25 by Mary Kerr

 

Agora eu quero lhes contar uma coisa, porque vocês não fizeram o dever de casa direito: o movimento “corpo positivo” já está aí há muito tempo e vocês não estão inventando absolutamente nada. Aliás, o movimento “body positive” é um danado de eufemismo pra dizer justamente isso que vocês disseram de “todos os corpos”, no entanto, ainda são mais respeitosos por não utilizar a gordofobia em vão como vocês fizeram. Pintar um corpo gordo não é combater opressão, sabiam? Vocês estão que nem a esquerda que faz ciranda e entrega flor pra polícia (enquanto ela te joga bomba, claro! rss). Vocês pensaram como bons liberalistas que são,  na profundidade de um pires pra encobrir todo o vapor da aceleração das máquinas que estão no fundo do porão, inflando à plenos pulmões a ideia de que o indivíduo tenha prioridade sobre o coletivo. Isso realmente eu tenho que concordar, souberam fazer bonito!
Mas vocês mexeram com pessoas muito vulnerabilizadas e que, apesar de todo movimento ainda escamoteado, luta diariamente pra sobreviver mesmo tendo de ouvir a TODO MOMENTO que precisam emagrecer, que precisam parar de ser preguiçosos, que precisam parar de ser fracos, que só emagrece quem quer, que o rosto é tão lindo, que só fazem gordice, que vai morrer assim porque quer, não tem capacidade de ir atrás de algo melhor… inúmeras violências cotidianas. Vocês mexeram com um movimento que está tentando crescer e se sustentar por suas próprias pernas, mas que carece de muito apoio ainda… E o apoio vem justamente vestido de lobo na pele de cordeiro, com propostas assim como a de vocês SUUUUUPER revolucionárias (só que não!), como se fosse um passe de mágica. Eu considero isso de uma sacanagem tamanha que não consigo descrever em palavras, só sei sentir e não é pouco. Vocês brincaram com algo tão frágil falando em Gordofobia, nos oferecendo um pueril de esperança que desaparece no ar – ou na próxima página. Porque continuamos experimentando, coletivamente, de forma estrutural e estruturante, as diferentes faces dos cruzamentos de opressões. E mesmo colocando uma preta, uma trans, um viado, ou qualquer outra pessoa “não-padrão” numa sessão de fotos, todos voltaram pras suas casas e sofreram diretamente a violências por se exporem assim. Somos em poucas pessoas fazendo isso de se mostrar e dar a cara pra bater publicamente assim. Dói muito, é uma dor em dobro porque o machucado fica exposto na internet por tempo indeterminado e quem quiser reviver a surra, é só “upar” o post. É só republicar. É só compartilhar. É só um clique e nossas caras e corpos estão lá, de escárnio novamente tal qual publicamos a 1ª vez para sermos fonte de força e energia para nós e às outras pessoas, uma forma de gritar que estamos vivas e não nos calaremos, mesmo que as violências cheguem com a mão mais pesada e atinja onde a gente nem sabia que poderia doer. E vocês oferecem PINTURA CORPORAL DE GRAÇA?!! Vocês devem achar que a gente é muito idiota pra achar isso lindo e maravilhoso, né.. Só pode. Meu riso é de nervoso agora, porque nunca vi uma marca jogar tão baixo para se promover às custas da opressão dos outros, muito embora eu não esteja surpresa, porque com vocês o jogo é sempre sujo.

Artist most unfortunately unknown

O que está visível para vocês é só uma parte muito pequena frente à toda população de mulheres brasileiras, onde a maioria é negra e das quais, vocês não sabem nem que existem – a não ser quando precisam cumprir cota de comercial pra sair bonito na fita. Eu chamo esse movimento de passada de perna, porque a real oficial é que nada muda na vida das mulheres gordas negras brancas trans ou travestis cisgêneras indígenas cadeirantes com deficiência empobrecidas das águas e das florestas dos territórios quilombolas dos territórios indígenas (…) ad.infinitas TODAS. Não muda. Vocês só fizeram isso pra aliviar a culpa que fingem sentir enquanto chafurdam num novo “nicho” comercial afim de compreender por quais vias vão agir para garantir mais audiência e maior lucro a cada ano, mesmo que isso signifique fazer pesquisa barata sobre assuntos tão fundamentais. Porque é isso que nós somos pra vocês, um nicho de mercado onde vocês estão cumprindo a cartilha publicitária de identificar as “necessidades” (criando-as, na verdade) e preenche-las com seus incríveis poderes. É só isso que nós somos. E todo discurso “bonito” de respeito-diversidade-cultura-xôpreconceito-todosfelizes-etc do tipo não passa de um calabokitos que vocês adoram enfiar goela abaixo da gente. Muita gente engole mas tem umas que ficam engasgada e cospem fora, tentando atingir na cara de que antes lhe sufocara com o dissabor do silêncio forçado, da enganação, da “amenização” por meio de cada vídeo gravado.

From the Korpus series by German photographer Antje Kröger

 

A discussão sobre autoestima é todo dia, uma conversa íntima e solitária e muitas vezes silenciosa. Essa é uma forma mais branda de lhes dizer que houveram muitos carnavais em que eu não sai de casa porque não me sentia gente por ter esse corpo gordo à estar na folia como todo mundo. Carnaval ainda é sinônimo de corpos nus ou com pouca roupa, fantasias, muito glitter, azaração e beijo na boca. Mas vocês não fazem ideia do que significa colocar meu corpo na rua nesta época do ano. Vocês não fazem ideia de quantas mulheres gordas continuam em casa assistindo o carnaval pela televisão enquanto aguardam a liberação cirúrgica pra fazer uma cirurgia bariátrica porque a pressão é tão forte que muitas vezes isso não é uma questão de saúde, mas uma imposição social.  Vocês não sabem o que é esse sentimento de ter o corpo errado para o verão, logo, para o carnaval e ter que domina-lo e destruí-lo todos os dias.  Vocês não sabem o que é ter um corpo depreciado o ano inteiro pra chegarem agora com essa história furada de que “vamos celebrar todos os tipos de corpos”. Todos os tipos corpos MAGROS são celebrados, não só no carnaval, mas no ano inteiro. Vocês não fazem ideia do que significa discutir Gordofobia e o quanta responsabilidade contém nesse debate a ponto de precisarmos sempre enfrentar céus e terras para que as pessoas politizadas prestem atenção nisso.
A discussão sobre Gordofobia é real e ela não pode ser reduzida à corpos pintados como símbolo de “aceitação”, uma atitude que não condiz com o nosso cotidiano… Em que a ideia de beleza está ainda fortemente atrelada à uma ideia de saúde que vocês ajudaram a construir ao longo dos anos, ou mais precisamente desde 1967 quando se instalaram por aqui. 

 

 

A visibilidade não significa que estamos promovendo a ruptura… Só significa o início de tudo, que estamos  nos tornando visíveis para que, coletivamente, possamos entender que a diferença abriga lutas em comum, frentes de atuação coletiva e disputas de um poder que nós não temos enquanto grupos subalternizados. São ELES que tem, enquanto mídia e capital.

 

Só queria registrar meu engodo com esse tipo de campanha, que eu já tinha visto ano passado com aquela das latinhas da “cor da pele” das pessoas, ficando evidente que só elaboraram melhor o mesmo mote daquilo que sempre sustentou seus comerciais: os corpos, a vida das pessoas. A cerveja não vende por si só, as pessoas é que vendem a cerveja com seus corpos, é como se a cerveja fosse dona das pessoas a tal ponto que as latas teriam as cor de peles diferentes. Quando a comunidade negra diz que o racismo se adapta, se transforma e principalmente, se aprimora, se encaixa perfeitamente nisso que a marca de cerveja nos oferece hoje em dia como forma de “desculpa” pelo passado.
Não tenho notícias de uma sequer divulgação de pesquisa interna feita na empresa e suas filiais (ou seja lá como vocês chamam seus braços de vendas) acerca das condições sociais de seus funcionários e suas funcionárias, contratados permanentes ou não, sobre identidade gênero, cor/raça, idade, maternidade e crianças, sexualidade, pessoas com deficiências, classe social y outros marcadores sociais para se enxergar e lançar alguma campanha pra si mesma, oferecendo garantias trabalhistas que faltam ou tudo mais que um relatório completo pode oferecer como respostas. Essa deveria ser uma preocupação da marca, já que quer tanto se redimir, comece por viabilizar a existência digna das pessoas em seus postos de trabalho e quem sabe assim, possam celebrar as vidas que importam de forma mais honesta. Talvez se vocês conseguissem equiparar o mesmo valor do trabalhador do chão de fábrica a quem trabalha no escritório geladinho em São Paulo discutindo ~empoderamento~ as coisas fossem realmente mais próximas dessa imagem de culpa que vocês querem passar, só com essas campanhas tá bem difícil de acreditar. Porque não considerar relevantes suficientes as medidas apontadas pelos movimentos feministas, movimentos negros, movimentos LGBT’s, movimentos anti-gordofobia e aplica-las no seu próprio quadrado?! Isso seria muito redondo! Aposto que já teve muita gente preta sendo desclassificada de vaga porque “não tinha o perfil”  que procuravam, tenho certeza que vocês são uma empresa pálida em sua maioria, botando de pé um corpo empresarial branco, rico, hetero e cisgênero desnudo para que um outro igual vos pinte para o carnaval com o lápis da caridade, os melhores tubos de tinta guache e o maior pincel: o da cara de pau.

 


Imagem de destaque: by Earth Klein by German photographer Rolf Ohst, 2010

2 Comentários

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  1. Bruna

    O movimento precisa dialogar com mais maturidade… definir suas bases e clarificar a transmissão. Liberalismo é o indivíduo acima da coletividade. O texto está incoerente. Talvez a palavra que mais se encaixe seja capitalistas e não liberalistas. Não é só questão de palavra, mas de realidade. É necessário mais estudo. Não podemos demonizar a corrente filosófica que permeia até mesmo o pensamento feminista. A demonização só atrapalha, causa conflitos internos no movimento feminista e cede ao opressor. No mais, parabéns

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