#5 compartilhado

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” Choro porque tenho algumas amigas tão ou mais gordas que eu, e acho todas linda, só a mim que não consigo achar minimamente bonita.”

Por Laís Otero

Oi, Jéssica! Tudo bem?

Meu nome é Laís, tenho 20 anos e 115 kg. Sou leitora do “Gorda e Sapatão” e quando cheguei ao fim do post “Compartilhe empoderamento”, vi um convite. Um convite pra abrir meu coração, pra tentar buscar alguém que entenda essa angústia que não sai de mim.

Eu nunca fui magra, exceto nos meus 5 primeiros anos de vida, quando morava com o meu pai. E isso porque ele era (ainda é, na verdade) obcecado pelo que ele chama de “alimentação saudável”. Eu nunca pude chupar uma bala perto dele. Se alguém me dava um doce, ele me não me deixava comer, e dizia que a pessoa tinha dado porque era feia e queria me engordar pra eu ficar feia também. Chegou ao extremo de ele me arrancar da casa do meu avô, onde eu estava me recuperando de uma catapora (minha mãe achou melhor me separar da minha irmã recém-nascida enquanto eu me recuperava) só porque meu avô tinha me dado uma caixa de bombons e tinha decidido mimar a neta que ele pouco via (porque meu pai nos proíbia de visitar a família da minha mãe) fazendo pratos que eu gostava e que ele sabia que na casa do meu pai eu não podia comer – afinal, segundo meu pai, meu avô só fazia aquilo porque minhas tias eram gordas e, consequentemente, feia, e meu avô queria que eu ficasse como elas.

O tempo passou, meus pais se separaram e eu, minha mãe e minha irmã voltamos para a casa do meu avô, onde também viviam uma das minhas tias e a minha bisavó. Minha bisa achava que criança magrinha era criança doente, então me empurrava comida e remédio pra abrir o apetite o tempo todo. Não demorou pra surtir efeito, comecei a ganhar peso e aí foi a vez da minha mãe começar a implicar (minha mãe, também gorda): “assim não dá pra comprar roupa pra você, para de comer, olha o seu tamanho!”. No dia que eu, que sempre achei a dança uma coisa lindíssima, pedi pra entrar no ballet, e ela me disse que se eu quisesse teria “que perder peso, porque não existe bailarina balofa”. Eu fiquei arrasada.

Quando eu completei 11 anos, ela decidiu me mandar no endocrinologista, “porque não é saudável, pra uma criança de 11 anos e com uma família cheia de problemas de saúde, ser tão gorda”. No fim, a criança gorda tinha a saúde perfeita, todos os exames ok. De acordo com o médico, meu único problema era a minha “boca grande”. Me encheu de remédios – que meu avô, famacêutico, avisou que eram uma bomba pra minha saúde (uma fórmula que misturava inibidores de apetite, remédio para controlar a vontade de comer doces, calmantes, laxantes e coisas que eu nem entendia o que eram), mas minha mãe me fez tomar mesmo assim. Eu passava muito mal por isso, vomitava, ficava deprimida, lenta. Na quarta ou quinta consulta, o médico disse que eu precisava emagrecer, ou morreria sozinha “porque ninguém ia querer namorar com uma gorda”. Saí do consultório aos prantos e nunca mais voltei. Até hoje, pensar em ir ao endócrino me faz chorar, por medo de passar por isso tudo de novo.

Junto com isso veio a minha crise e identidade por conta da minha cor. Meu pai é negro e minha mãe é branca. Eu sou o que as pessoas chamam de “moreninha” – e eu não gosto dessa classificação. Nunca me deixaram me afirmar como negra, e eu nunca me senti branca. Mas essa é uma questão com a qual estou lidando melhor. Aceito minha pele, meu cabelo, meus olhos. Assim, aos poucos consigo me afirmar como mulher negra. Só preciso amar mais esses meus quilos

E eu cresci assim. Complexada. Infeliz. Gorda. Chorei a cada vez que riram de mim na escola por conta do meu peso (e foram muitas vezes, e muitas dessas vezes foram meninos tão ou mais gordos que eu, mas que podiam e sempre poderão ser tão ou mais gordos que eu porque são homens). Chorei quando disse a esses meninos que eles também eram gordos, e eles me responderam dizendo que “pra mulher é muito mais feio que pra homem”. Chorei como nunca quando vi o terceiro dígito na balança. Chorei quando quando meu namorado e meus amigos me disseram que eu sou linda assim, porque acho que eles só dizem isso por pena de mim. Chorei quando não achei o vestido meu tamanho. Chorei quando vi que nos bares e baladas só me procuravam no fim da noite, quando todas as moças magras já estavam acompanhadas. Chorei ao ver o olhar de recriminação das pessoas ao me verem comendo em locais públicos (e isso porque eu não tenho comida tanto assim, já que uma simples refeição é o suficiente pra me deixar enlouquecida de culpa). Choro porque tenho algumas amigas tão ou mais gordas que eu, e acho todas linda, só a mim que não consigo achar minimamente bonita. Choro e não quero mais chorar. Quero me amar. Não quero mais me esconder em roupas maiores e escuras e que em nada demonstram minha juventude. Eu quero roupas coloridas e frescas. Eu quero transar com a luz acesa sem achar que ele está contando minha estrias enquanto me vê nua. Eu quero me sentir linda. Quero me amar. Quero me querer. Quero dançar.

Não sei se você vai ler um e-mail tão longo assim (me desculpo pelo tamanho deste), mas a simples oportunidade de escrever pra alguém que talvez possa entender que minha angústia não é “bobagem, idiotice” (como já ouvi tantas vezes) já me faz ser muito grata a você.

De uma jovem gorda, negra e bissexual que quer dividir a dor e compartilhar o empoderamento.

2 Comentários

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  1. Natália

    Oi, Laís!
    Seu texto me deixou com lágrimas nos olhos :'(
    Obrigada por compartilhar sua história, gosto de relatos sobre como outras pessoas enxergam e/ou como se sentem enxergadas…

    Podemos conversar, talvez?

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