30 dias bloqueada no Facebook por desejar um baile funk sapatão

30 dias bloqueada no Facebook por desejar um baile funk sapatão


Não é o fim dos tempos e menos ainda uma novidade. O Facebook tem sido desde sua fundação uma plataforma da vigia, do controle, da caixa ou “bolha”; ele dá falsa sensação de uma liberdade expressiva que tem seus limites: até aonde o Facebook PERMITE você chegar.

 

Ontem por volta das 23h eu publiquei um txt comentando sobre um evento que havia acabado de chegar, e até aí tudo bem, não fiquei muito tempo pela time line, mas hoje de manhã quando eu tento acessar, a mensagem que me chega é esta:

print do meu celular

print do meu celular

 

Removeram a publicação porque ela não segue os padrões da comunidade Facebook! Entenderam? Fazem de mim a antítese dessa comunidade, onde eu não posso escrever que meu sonho é ir num baile funk que só tenha SAPATÃO! Aliás, palavra esta que tem sido muito bem apropriada pelas lésbicas e denotado um fortalecimento de identidade política muitíssimo forte! Então não me espanta o bloqueio, não é novidade, tampouco quero ficar perdendo meu tempo buscando descobrir os mecanismos desse espaço. Eu já sei como funciona, porque fora das redes sociais é o mesmo esquema: Silenciadas até o último pio. Sentenciadas à mortes e negligências  sistemáticas: do Estado às construções simbólicas que regem a estética hegemônica. Então me lembro agora de quando eu postei a música e outras minas comentaram que adoraria também ir num baile sapatão. A gente tem pouquíssimo espaço de sociabilidade lésbica, espaços onde podemos nos abraçar e beijar em paz, DANÇAR sem sermos assediadas por homens babacas, sarrar…. Sarrar muito, como todo mundo faz quando vai pra um baile funk! Me parece no mínimo muito justo a gente sonhar com um rolê assim! Mas lá vem o Facebook dizer que não, que nem a palavra será permitido, quanto mais um sonho.

É bom não subestimar as sapas! Em São Paulo acontece uma festa organizada por minas pretas y lésbicas e bissexuais, que desde sua primeira edição, reuniu muitas lés.bis da cidade numa única festa! Eu fiz parte desse momento histórico, faço ainda parte do coletivo que organiza a Don’t Touch My Hair (que aliás, tem festa dia 09/12!), e pude ficar feliz e satisfeita com a primeira festa onde a maioria das pessoas presentes eram pretas e sapatonas. Não somente isso mas também foi um espaço que encontrei com minas trans e travestis bem maravilhosas rebolando, se divertindo até amanhecer. Se o Mundo nos odeia, a gente chega com proposta de nos agregar em torno das músicas, danças, reinventando o corpo negro e afirmando nossa existência anti-ética cristã colonial, muahahahaha! Um chok de monstra, como já dizem por aí!
Recentemente outras minas também se organizaram e fizeram um bonde! É, exatamente, um bonde sapatão de funkeiras! O Bonde Só Vem  tem causado frisson nas noites sapatonas de SP, justamente porque existe outra festa (que eu não sei quem começou primeiro, se a festa ou o Bonde) chamada Sarrada no Brejo, que vem radicalizando a proposta de festa sapatão e só abre as portas pras minas, homem não entra. Esse é a materialização de um baile sapatão. Confere o teaser que tá muito 100sacional!

 

Teaser Sarrada no brejo – A festa

 

Mencionei esses exemplos pra gente saber que existe sapatonas resistindo de diversas formas possíveis e imagináveis! E que se a gente sonha, então a gente tem chances de transformar em realidade. A gente precisa se reunir, estar juntas politicamente e elaborar também espaços de diversão para nós mesmas. Da maneira que der, porque menos é mais! Facebook é um meio limitado pelo qual a gente pode explanar nossas ideias, mas é principalmente fora dessa plataforma que as construções são edificadas e precisam ser preservadas também.
Não me importo com esse bloqueio quando sei que tem lésbicas por aí se organizando, e apesar de toda invisibilidade ainda persistente, a gente segue resistindo e fortalecendo nossas vidas e lutas. Eu poderia escrever sobre a criminalização das nossas vozes nos espaços virtuais, sobre o cala-boca em minhas narrativas e etc e tal… Mas Grada Kilomba me contagiou e eu estou interessada, agora, em contar histórias.

Essa foi a de hoje,

obrigada!

 


Imagem destacada: by Joan E. Biren (JEB):  Gloria and Charmaine, 1979

 

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