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Desde os meus 15 anos eu me sinto estranha, inadequada. São 14 anos procurando o meu lugar. E não quero debutar esse sentimento.
Por: Luiza, 29 anos
Eu cresci em uma família que valoriza muito a imagem. Por causa disso sempre senti vergonha de errar e de ser quem eu sou. Minha irmã mais nova sempre foi a princesa da casa. Muito bonita, já participou e ganhou vários concursos de beleza. A típica modelo-atriz-cantora, de quem a família sempre se orgulhou.
Uma tia, certa vez, me disse que “algumas pessoas nascem para serem belas e outras para serem inteligentes” e que eu tinha que ser feliz por ser inteligente. Então, a mim, restava tirar boas notas na escola. E eu ficava horas e horas estudando para manter o nível, afinal, era o que me restava.
Sempre fui muito pequena, magra. Aos 15 anos mudei de cidade e as coisas pioraram. Eu queria ser outra pessoa. Acabei me desinteressando dos estudos, entrei em depressão. Terminei meu namoro – que havia começado pela internet – e passei a me desvalorizar. Saía, ficava com qualquer garoto, me sentia usada e pensava qe era isso mesmo. Meninas feias não são para namorar.
Depois do 3º ano do colégio, entrei para a faculdade de Design e comecei a trabalhar na área antes de me formar. Minha família continuava aplaudindo a minha irmã. Seis meses antes de me formar na faculdade, pedi ajuda aos meus pais: queria colocar silicone. Eles pagariam metade, eu metade e depois pagaria eles em prestações. É claro que meus pais negaram. Mas um mês depois minha irmã colocou o silicone (integralmente pago pelos meus pais, é claro) e quando perguntei aos meus pais o motivo de pagarem para ela e não para mim, a resposta do meu pai foi muito simples: “ela é bonita, merece ser ‘ajudada'”.
A depressão me pegou de novo. Quase não fui à minha festa de formatura. Passava horas pensando em como me suicidar. Então comecei a fazer terapia. Me ajudou por um tempo, depois percebi que estava gastando mais dinheiro tentando ficar bem do que realmente investindo em ficar bem. Parei a terapia. Comecei a namorar um cara que se tornou o meu porto seguro.
Comecei a deixar de pensar sobre minha imagem. Mas no meu íntimo, ainda sentia muita vergonha, muito medo de me expor. Tanto pela minha aparência quanto por não fazer parte de uma profissão que tivesse status. Acho que o que eu sempre quis mesmo foi ser valorizada pela minha família, foi que parassem de me comparar com a minha irmã (ou, nesse ponto, com meus primos médicos, advogados, enfim, “importantes”).
Desde os meus 15 anos eu me sinto estranha, inadequada. São 14 anos procurando o meu lugar. E não quero debutar esse sentimento. Acho que já “melhorei” muito em relação a isso. Mas ainda não consegui me libertar. E isso dói, literalmente.