#2 compartilhado

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“Eu gostaria que eu e todas as outras garotas, mulheres, meninas se sentissem confortáveis e lindas no seus corpos todos os dias. “
Por A.
Eu tenho 18 anos e cresci em uma cidade esquecida no sul de Minas Gerais. Criada por avós conservadores sempre fui uma garota que não ligava para a aparência até os 12 anos de idade, quando me mudei para São Paulo (Capital). Em SP me vi engordando devido a má alimentação que recebia. Antes morava em uma fazenda, fazia exercícios diários e tinha uma boa alimentação. Aqui, em SP, enlatados e comida gordurosa, para mim não fazia diferença até começarem os ataques da minha própria família. Morava com meu pai nessa época. Ele, também gordinho era obcecado por exercícios e minha madrasta era um exemplo de mulher bonita na sociedade atual. Aos 13 começaram os comentários: “Você está muito gorda, você não era assim antes?”, “Que nojo, como você pode engordar tanto? Você não liga pra sua aparência?”. Foi apenas o início dos problemas. Aos 16 minha madrasta nos deixou, mas antes fez questão de infernizar minha vida. Roubava minhas coisas, me fazia limpar a casa todos os dias, meu pai também me obrigava a fazer as tarefas domésticas, tudo sozinha e quando não fazia uma chuva de ofensas caía sobre mim. Sei que soa como conto de fadas, mas infelizmente não é. Tentei me matar e fui parar no hospital, ao sair de lá recebi a seguinte frase “Você é tão inútil que nem consegue se matar”. Quando errava em algo, ele me dizia que eu deveria ter morrido naquela tentativa. Então aos poucos ele foi parando de cozinhar, se eu quisesse comer, deveria ir a casa da minha avó que era embaixo na nossa. E se eu perdesse o horário da refeição, tinha de esperar até a próxima ou até o dia seguinte. Odiava a comida dela, me odiava. Não conseguia olhar pro espelho, me sentia feia e gorda, e era lembrada disso constantemente. As vezes melhorava, me sentia tão linda e confiante, mas os insultos deles continuavam e também os comentários na escola. Eu me interessei por Moda Alternativa Japonesa, mas as roupas não ficavam como eu imaginava e isso me deprimiu novamente. Comecei a vomitar tudo que comia, fazer exercícios freneticamente, mas não conseguia emagrecer. Aos 17 saí de casa, anêmica e acolhida pela família do meu namorado. Ainda me odeio, há dias que eu olho pro espelho e gostaria de me matar. Eu tento dizer pra mim mesma que sou bonita e forte, mas há dias que isso não importa. Cada vez que me olho no espelho me sinto pior. Eu vejo todas aquelas garotas nas fotos e nas revistas e fico me perguntando “Porque não posso ser como elas?”. Discrimino outras garotas acima do peso apenas pra me sentir melhor e depois fico extremamente culpada por fazer isso. Conheci o feminismo há algum tempo e tento me policiar contra esses e outros pensamentos, mas atualmente eu não me olho mais no espelho, pois apesar de ninguém mais dizer que eu estou gorda, eu me sinto assim. Eu sinto que se eu não pesar 45 como quando eu tinha 12 eu sou uma pessoa feia, gorda, horrível.
Eu nunca contei a ninguém que vomitava minhas refeições, que ficava constantemente sem comer, pois não queria eles me recriminando ou se preocupando comigo, eu também nunca aconselhei ou falei diretamente mal de uma pessoa acima do peso. Por mais que eu pense coisas horríveis delas as vezes, eu sei que estaria fazendo o que meus familiares fizeram comigo e eu gostaria que nenhuma garota pense de si mesma o que eu penso de mim. Eu gostaria que eu e todas as outras garotas, mulheres, meninas se sentissem confortáveis e lindas no seus corpos todos os dias. Eu gostaria de olhar revistas, propagandas onde houvessem mulheres de verdade, acho que assim, eu ficaria mais feliz comigo mesma.

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